Quarta-feira, 7 de Março de 2012

do Sol

na dura entrega à luta
pelo nascimento da criança,
foi o despertar das trevas;
donde sonhos e expectativas
passaram a derrotas e apatias,
sem nunca dar luta, oferecendo sempre tréguas.

na dura balança,
onde a evolução não avança nem cresce,
onde a frustração pesa de mais
pois a perfeição é algo que não se alcança.
E o movimento fica preso e parado,
o medo sufoca o possível, o que sempre foi possível,
por uma lava que corre nas veias de cada orgão
por uma alma que não tem descanso
mas que nunca se cansa.

Não importa o calor que aquece as três faces
da moeda; o frio que invade por de baixo da pele
que penetra carne e atinge o imaterial,
é um amar sem verdadeira entrega
nem sequer é amor,
é um matar sem consciência mas com rancor,
nem sequer é morte.
Afastar o sol ou abraça-lo
é tudo o mesmo;
é escolher entre o horror sincero das trevas
ou o verdadeiro queimar intenso
que para com a destruição não dá tréguas.
Nasce o dia.

Segunda-feira, 5 de Março de 2012

a Chuva

Uma tempestade mental faz
pensamentos embaterem em pensamentos,
No céu as nuvens combatem por encontrar
um espaço onde possam viver sozinhas,

mas as nuvens não foram feitas para estar sozinhas,
e os pensamentos combatem, gritam até que um e só um
se eleve, se torne melhor que todos os outros...mas todos
gritam.
E no céu é libertado o trovão e o relâmpago,
anunciando todo um silêncio, uma paz ansiosa
que se propaga...

Uma gota de lágrima rasga o olho.
E esse frio cresce, estás deveras vivo,
demónios tocam a mão esquerda, tentam subir
e os anjos acariciam os dedos da mão direita.
Todos ao mesmo tempo, no presente,
do futuro ao passado, do que foi ao que podia ter sido,
ao que é.
O olho rasga-se. Escorre pela face.
Desce do céu até ao chão, até à janela
até ao cabelo.
Começa a chover.

Sábado, 3 de Março de 2012

hopeless

"And how can this mean anything to me
If I really don't feel a thing at all?"

Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012

A vez


Desde ontem,
desde hoje,
amanhã.
Desde o dia.
Até ao dia.

Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

confissão moldada


o Homem entrou no momento certo,
de olhos no chão, não fingindo interesse
pela carne ou pelo bem material...
Humildemente, por vontade própria,
entrou, e confessou..

O anoitecer da alma chega,
traz com ela o receio da destruição interior
é um duelo sem trégua à vista
onde cada movimento acaba
em solução sinistra.
Está tudo disperso.
o terror invadiu cada partícula
do físico ao escondido intocável.
O arrependimento ou a dor
a fome num alimento envenenado.

Só, confiante na tristeza, na incerteza
dos passos que não são dados
com clareza - vontades e saudades
são como suores frios
palavras e gestos são
preenchimentos vazios.

o Homem saiu no momento certo,
de olhos no chão, com uma fome imensa
por carne - o rasgar, o tocar, o saciar;
um desejo por alcançar tudo o que se pode
e também pelo que não se deve desejar.
A humildade foi deixada para trás,
saiu por obrigação, jurando nunca mais voltar.
A falsa paz terminou, esta é a guerra verdadeira,
a única que o satisfaz. Solto das amarras,
solto dos sentimentos dos quais é capaz,
Viverá para sempre, agora consciente de que sempre foi

um monstro.
 

Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012

a fome da Leviatã

Grilhões pesados, fixados na mente
fixados no corpo...
uma imagem de culto, um respirar cansado
de quem já viveu de mais, de quem já procurou de mais,
O pensar beijou o sentir - surgiu o terceiro olho,
atingiu-se o sexto sentido.
o pequeno deus, o pequeno ser, cai morto.

Não se podem esquecer que os demónios
também precisam de alimento.
São sete pequenas criaturas, são todas as outras.
Na imortalidade das Eras
esquecem-se as mais importantes quimeras;
é a besta do horror, a fera que consegue rasgar o sol,
o céu e o mar são vermelhos...
A última lança perfurou a salvação?
Está escrito na pele, está envolto em veneno,
por hoje nada se faz, tudo se fará amanhã...
Não foi cedo, talvez tenha sido tarde..
Já está alimentada a Leviatã.

Arde o desejo nessa dança
à luz das chamas, à luz das trevas,
A verdade do espírito é pobre, é podre,
e que não se passe de hoje
sem que as ruínas virem cinzas.

Os meus irmãos, para os outros apenas imagens e escrituras,
as mais diferentes, as mais monstruosas criaturas,
rastejam, sucumbem,
a culpa não é de mais ninguém
mas agora já é tarde, estando-se vivo
é impossível ir embora...
Fomos destrancados da Caixa de Pandora.

Sábado, 21 de Janeiro de 2012

before I forget



o Silêncio é abraçado,
a Solidão aceite, convidada a ficar,
amada, é um fado já conhecido;
astuta maldade, peculiar mediocridade
tão imperfeitamente escondida.
e o Silêncio é firme, assim como tudo o resto
a escrita é apenas mais um crime.

fraca ilusão, devorada ao extremo,
sem restos de carne, sem restos de ossadas
por devorar. Terão sobrado cinzas.
a perfeição de um círculo
marcada num terceiro olho; tão fechado,
Num Engano - a monstruosidade não espera,
já escorre sangue do pescoço do cordeiro.
Tudo começa com um suspiro, que se expande
num arrepio que percorre todo o corpo.

olhem todos em frente. apenas em frente,
a luz que ficou para trás já se perdeu..
um objecto estranho cravasse no olho,
e a dor? Suporta-se. E a mudança?
Ah mágoa dessa vida, Ah vida.
Nada é o que parecia ser - enquanto letras soltas
se dissolvem, e sobram partículas
minúsculas espalhadas o suficiente
para que nunca mais se voltem a juntar.
Chegará a hora
do Despertar de Pandora.

Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012

a n i q u i l a ç ã o

Carne. Doce, amarga, carne.
é aceite a negação;
passaram tantos dias desde
que coloquei as minhas mãos à tua vontade.
Tantos dias. Dias para aprender,
a evolução nasce
na morte de todo e qualquer sentimento.
no prazer, na dor, na sua dança,
na exclusão de cada sensação.
como se fosse evitado o pecado,
um demónio exorcizado,
por todos aqueles que vivem
na ignorância mais santa, na dormência
mais santa,
- em nome de uma mentira sagrada.
E para quê?

Fogo e gelo; consciente do desespero
de quem já não devia cá estar. E para onde ir?
Não há sentido, não há lugar,
- é como se tudo estivesse destruído.
Perfeita a peça esculpida
a frio, faminta no barulho
alimentada pelo ódio que seduz o mundo
esquecendo-se do silêncio.
- Esse pedaço desassossegado, essa partícula d'alma.

..não me teria hoje lembrado, mas lembrei,
continua, continua, continua, ignora agora Esse suspiro,

não será longa a demora
do Despertar de Pandora.

Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

amonstrificação

do nada nasceu o tudo
mas o tudo pode mudar num só segundo.
a total destruição do todo que nos
rodeia, o desvanecer da ilusão,
a elevação da criatura mais feia.
Queriam o silêncio? Não o guardem então.

E eu minto, vou roubando e despindo,
como o vento e o tempo
sobre a árvore,
nessa hora de outono.

Embriagados por uma sede sem fim,
amaldiçoados com a melhor bênção,
em mim só sobra o cansaço.
Foi a luz em demasia, foi luz que levou
à cegueira, agora sobram somente as trevas.
Negras são as letras, pensados são os actos,
e não procurem mais - o abismo da incerteza
é aqui que mora.
o casulo aguarda até ao limiar
do Despertar de Pandora.

Sábado, 24 de Dezembro de 2011

Mensagem de 'boas festas'

Este ano não vou gastar muitas palavras, pelo menos minhas. Sabe melhor ouvir duas músicas e as respectivas canções. Boas festas é o resumo. Lembrar que no Natal as melhores prendas não vêm embrulhadas, em papel pelo menos, e que é a altura perfeita para pensar um pouco mais nos outros, ou deveria ser. Quanto ao ano que aí vem...A passagem de ano interessa-me tanto como o desinteressante...O ano muda, mas não muda em nada, só aqueles que ainda não chegaram ao ensino superior (que todos os dias têm de colocar a data e a lição) ou os que diariamente, na sua função, têm de olhar para a data, é que vislumbram uma mudança muito muito pequena. O mundo não vai mudar, nem as pessoas...e se sobra alguma esperança no coração de quem gosta de sonhar, então é esta: uma quase folha de um branco pouco nítido para se começar de novo, ou algo do género. Dito isto, e com toda a honestidade que é possível a um monstro: desejo a todos um Natal feliz, com as pessoas que se ama por perto (de sangue e não sangue), assim como uma passagem de ano excelente, novamente com quem se ama por perto, mas valorizando ainda mais a frase: um ano de 2012 melhor ou muito melhor que todos aqueles que passaram até agora, todos. Obrigado.



Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011

não aceitar Para morrer



Quando me vejo ao espelho...Por vezes esqueço...
Volto-me a ver ao espelho..Importava-me ser...
Agora não me importa nada.

Delicioso é o pormenor da vida, enquanto é alimentada.
A obrigação de esquecer é pesada, sempre presente
fazendo recordar uma maldição que não deveria
pertencer a ninguém. Mas pesa, mas pertence.
Inglória batalha, o esforço suja o chão como se fosse sangue,
são olhos de uma tragédia que devoram a realidade.
Absorção de cores tão frescas, tão secas, tão tristes,
contrários quase belos, que vão derretendo...Parece
beleza, parece utopia, mas é ilusão apenas,
escondendo a podridão de uma morte já assimilada.
Ser-se em alto e baixo relevo na mesma peça,
culminar num fingido êxtase de sentidos;
não são sonhos a perseguir, não são sonhos já perseguidos,
são vazios eliminados e esquecidos.
a Quem importa afinal o findar da vida? o Receber da morte?
fraqueza, ausência de qualquer poder para recusar,
é o desespero, o viver do pesadelo,
é não conseguir.
voa agora, voa para bem perto,
para continuares a ver cada sabor e cada sensação
a fugir das mãos, por cada dedo, como se fosse areia,
preenchendo
ainda mais este deserto.
não são tintas vivas; é o cinza
é o preto, é tudo pincelado, é tudo esculpido,
é tudo descrição surrealista, por parecer estar tão longe.
a chama congelou, bela obra de arte, enquanto a rocha
ardeu, e ardeu tanto que se transformou em água...
são Letras, palavras, procurando unir: a teoria
à prática, o concreto ao abstracto,
o que mais ninguém Vê
ao óbvio que realmente é. Não se aceita, nem se sente,
nem se faz, e mais ninguém nota,
e por isso estamos a morrer,
É o motivo pelo qual tanta beleza E cor
se chama Natureza Morta.




(notas: agradecer as views do blogue, que passado quatro anos, ultrapassaram as oito mil; dar ainda a sugestão a quem tiver tempo (o dinheiro gasto é mui pouco e compensa) para passar na exposição "natureza-morta gulbenkian" que está lá até meados de Janeiro de 2012. Está excelente, e tomou conta deste poema, ou deste texto.)
( quadro de
Pieter Claesz )

Domingo, 11 de Dezembro de 2011

esquecer E aceitar

Quando me vejo ao espelho
Não vejo quem sou, vejo o que os outros vêem.
Eu mesmo, sempre mais velho, mais desigual.
Um retrato pintado a tintas vivas que se mexe
ao sabor do tempo. Sento-me à margem desse rio enorme
chamado oceano olhando, sem fazer quase nada.

A paz que não detenho é uma paz inglória, nada fiz para a merecer.

(a música embala-me enquanto passeio entre hesitações)

Por vezes esqueço...
Seres racionais esquecem-se de amar...
E os que amam, esquecem-se de pensar...E depois,
Sobra sempre a ignorância, de quem não quer tentar.
Ou de quem vive tentando, sem conseguir.
No fundo, caminhamos todos para o mesmo fim...
Apenas caminhamos por estradas diferentes.

Esqueço-me...mas é a verdade.
Por vezes pensamos tanto tempo na maneira de fazer,
Que nos esquecemos de fazer de facto.

Volto-me a ver ao espelho...o que mudou?
Nada...cresceram-me asas negras, num corpo humano...
Ou serão asas brancas num monstro?
Nada. As asas mudam de tamanho, mudam de cor,
e apenas sobram restos de um corpo humano
num real monstro.

Importava-me ser...
E para já não quero ser nada.
Porque nada importa.

(não deixa de ser curioso que este texto começou a ser escrito nos últimos dias do ano de 2009. Nunca foi totalmente acabado. Desse pedaço inacabado foram retirados 'excessos' e consegui agora, finalmente, acrescentar outras partes. Não o sinto acabado, no seu todo; mas nem tudo pode ser substituído, e algo verdadeiramente completo é complicado de alcançar. Resta-me ficar 'grato' por ter tido aqui a oportunidade de corrigir e de melhorar algo, passado tanto tempo, quando nesta vida quase tudo passa sem essa mesma oportunidade...e às vezes em espaços de tempo mais curtos, ou pior ainda.)