segunda-feira, 29 de julho de 2013

a canção d'os outros

'...este fulgor baço da terra 
que é Portugal a entristecer. ' (Fernando Pessoa)

Sem medo da morte. Sem qualquer medo da morte,
assim esperam, enquanto evoluíem, 
os que entraram para a História. 
Deixaram que essa luz se acendesse por dentro,
tal incêndio a alimentar-se de uma floresta.
Naqueles onde o olhar vazio
sem fome nem sede resta
n'outros é venerado, elevado, todo e qualquer desejo
que se manifesta. 

Demónios de sal, mar e areia,
Entre danças quotidianas e simples...
Mas ilusórias e falsas como
as canções das sereias.
O desafio é o longe, mas a conquista 
começa no que está mais perto...
O incerto está repleto de olhares
tristes, de sentimentos e sufocos e apertos.

Poderia estar enganado, tal criatura humana,
por uma chama que quase ninguém consegue ver,
Numa escrita insana, seguida por pés corajosos,
Almas que por sentir a vida
escolhiam as escolhas mais perigosas.
Por entre a Mãe traiçoeira Natureza,
das suas lágrimas agitadas,
do pó nascido da destruição calma e serena das rochas
e pedras...
Por entre colinas e serras,
Paz e guerras...
Um sangue pulsava forte, 
sem medo, sem qualquer medo.

Entristecido, adormecido, 
foi em tudo isto que tudo se transformou.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Razões obscuras

A concepção nas alturas do vosso púlpito, mesmo que imaginária
terá no seu resultado uma queda real...

Adormeceram nesse sonho profundo e belo...
Acordaram neste pesadelo, numa rotina
sentimental, racional, orgânica,
Revoltada nas essências mais escuras,
mais básicas, mais enraízadas na alma dura
que tortura cada centímetro dos pontos vitais da loucura.
Cresce por dentro esse aliviar macabro,
do faminto, do mito, do primal instinto,
dessa cor, cor de absinto,
Desse suor, dessas lágrimas, que escorrem por todo o lado.

O vosso tempo chegará, quando esse vosso céu azul
e brilhante se tornar escuro,
Quando o vosso chão consistente, estável e seguro
começar a termer.

Arrepios crescem de vários pontos do corpo,
Os olhos fecham e abrem num momento absoluto
num momento único...a respiração encontra-se completa,
como uma última tentiva de acertar uma seta no seu alvo
finalmente concretizada.

Mártires, falsos modestos, ingratos,
Inconcretos.
Sobre os factos verdadeiros chovem raios de luz...
Mas as ilusões duradouras, esses delírios de romantismo
e loucuras, para onde Deus nos lançou
e o diabo nos pôs

não passam de
razões obscuras.

sábado, 13 de julho de 2013

Salvações perdidas

Num lugar corrompido pelo mais simples
movimentar de lábios, da respiração que envenena
o ar, dos pés que já não caminham apenas pisam,
O dia d'amanhã promete cheirar a nunca.
Nesse oxigénio que vai alimentando os pulmões
cansados da corrida diária na busca da procura
por respostas e por perguntas
o pó e a cinza sufocam.
Perante toda esta água que afoga
D'alto a troça divina revela-se sobre a forma de chuva.
Tambores ao longe batem treze vezes, por uma hora
inexistente, nem agora, nem depois ou antes,
A escuridão cerra os dentes
e devora todo este todo
Por quem nasce
e por quem dá o seu último fôlego.
É tempo de fazer parte da História
ou de deixá-la passar,
como passa tudo o resto.
Nesse manifesto grotesto que está retraído no vosso peito
Aceitem a sugestão deste ser imperfeito
amonstrificado pela ausência de um verdadeiro conceito:
Sintam e pensem e ajam...ou deixem-se perder nesse horrível leito.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Corre

Podem fugir, ninguém vos irá deter
- Para já -
Corram até os músculos arderem
até o sangue ferver
Até que os ossos implorem por quebrar...
Escondam-se o melhor que puderem
- Não serão encontrados, para já -
Por de trás desses véus pintados de negro
para disfarçar um transparente tão vísivel,
Nesse local escondido, dentro do segredo,
Nesse lugar sagrado onde não penetra o medo...
Tão certo como o sol nascer e morrer e voltar a ressussistar
todos os dias...Tranquem as portas dessa vossa casa,
Construam muralhas tão altas quanto fortes,
Vivam aí, nesse vosso mundo pequeno,
Afastados do que esta terra cultiva de bom,
Apanhando serpentes para lhes arrancarem o veneno,
Enquanto podem , e só o podem para já...

A leveza doce é trocada pela maldição do que é amargo,
São deixados escapar, para sentirem o que é ter escapado,
Mas não será por muito tempo...
As mentiras cuspidas durante o escuro da noite
serão trazidas à verdade do dia.
- Morrerei várias vezes, até que tudo esteja diferente,
Lutada será a guerra com o intuito único de trazer a paz,
Sem interesses, sem favores, sem falsas preces...
Será trazido à Luz,
- E não será já -
Por tudo o que foi conquistado
Por tudo o que ficou destruído
Por tudo o que é a maldade humana
E por todas as acções da estrela da manhã...

Podem correr...durante muito tempo.
E podem continuar a correr...
- Mas tudo irá mudar...Só que não será já -
Por isso, e por tudo o mais, continuem a correr.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

a luz da noite

Nesse dito céu escuro, onde dormem as estrelas
que demoram a acordar,
Onde o sol distante perdeu o seu lugar,
Sentam-se os pensamentos
de quem ousou sonhar.

Mora longe o desejo, esquecido, recriado
descoberto; certo como a morte
Perfeito como a vida,
Ousado como quem ousou virar o Cabo
das Tormentas. Fomes imensas são
apaziguadas por um poder mais forte.

A calma veio com a noite,
Uma noite diferente das anteriores,
Suores frios, calores,
Por uma claridade que a custo é aceite.

Abrem-se os olhos...o que outrora estava
sozinho agora já não está,
E as estrelas acordaram,
Pequenas luzes na noite
tal farol num oceano negro
onde as ondas ameçam caladas
até ao momento da sua rebentação.

Chegou a hora - o medo e o terror
esmagam esse sabor tão doce e supremo,
Porque dói sentir diferente, sentir mais e melhor sem falhar.