sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Breve explicação

Neste dia 1 de Agosto de 2008, aproveitei para passar estes poemas, que contam já com mais de dois anos. Para os mais atentos depressa podem reparar um sujeito diferente. Talvez até contraditório. Mas não, momentos diferentes da mesma pessoa. O que me leva de facto a reflectir é que a verdade pode ser só uma, mas pode ser vista de vários ângulos diferentes e interpretada de formas também diferentes. E nessa batalha eterna entre a razão e a emoção, chamemos-lhe assim, a verdade é que todos nós, influenciados pelo nosso estado de espírito e momento actual, podemos defender tanto um lado como o outro, ou ambos. Ambos têm as suas vantagens e desvantagens. Relativamente ao poema Alencar, para quem se lembrar, da personagem d'Os Maias. Também eu gostei e de momento a minha poesia reflecte mais um certo Ega, por assim dizer, mas neste caso calhou a vez ao Alencar. Mais uma vez, reina esta magia contrária, de dois pólos.

Canções de embalar


Tenho saudade de ser criança.
Quando fazia tudo por espontaneidade
Verdadeira.
Quando chorava para chamar
A atenção, quando chorava sentido,
Quando pedia um brinquedo.

Por outro lado gosto de ser quem sou.
De ter as características que fazem
De mim o que sou hoje.

Por outro lado sou apenas:
Idade de adulto em pensamento
Quase inteligente numa mentalidade
Cómica e infantil.

Como todos nós
Existiu um dia em que também
Eu chorei ouvindo uma canção
De embalar.
Lembro-me como se fosse anteontem.
A minha mãe querendo-me acalmar
E eu ali, no silêncio de pura
Paz de alma, a chorar.

Oxalá Deus tenha
A sensibilidade
De nos dar uma
Canção de embalar
Durante a intemporal
Caminhada para a luz.

Alencar

Podem-me tirar tudo,
Podem-nos tirar tudo:
A razão, a lógica, a ética,
A moral, a verdade.

Mas não nos tirem
A beleza.
Quando quero ser eu mesmo
Olho-me ao espelho.

Quero lá eu saber
Como funciona a fotossíntese,
Quando vejo uma flor
Vejo apenas as suas
Cores, a sua forma,
A sua origem criativa,
A sua essência divina ou não,
A sua beleza.

O coração comove-se e ama,
Não me desiludam dizendo:
“É o órgão que bombeia o sangue”.

Se pesarem beleza e razão
Encontrarão a resposta.
Pesa mais a razão
Pois no mundo só caminham
Seres cheios de razão,
Obcecados por mais razão,
Ofuscados pela falta de emoção.

Alencar de Alenquer,
Viva cada um como quiser
Mas cá entre nós:

Um dia o Homem morre
E sobra apenas a natureza
Vai-se o que estava a mais
Fica a beleza.

Os donos da verdade


Quando quero ofender todos
Os seres humanos de uma só vez
Digo que também eu sou dono da verdade.

Falas e dizes pensar melhor que todos
Os outros.
Abram alas, chegou o sabedor.

Às vezes não te percebo, sentes-te
Vencido ou vencedor?
A verdade nunca é dita
Na sua totalidade.

Falas e dizes que só falas a verdade.
Por isso opto pela escrita,
Porque se falo as verdades estas caiem
No abstracto, perdem-se no tempo.
Quem as ouviu, depressa as
Esqueceu.

Ser-se verdadeiro não é ter-se sucesso,
É conseguir incomodar de maneira
A corrigir o que está errado.

Os donos da verdade já me acenam
Ao longe,
Eu sorrio hipocritamente,
Nem imaginam como vos odeio.

Na linha ténue, quase inexistente
Que devide uma folha pintada de preto
E de branco, ai reside a diferença:
Eu sou dono da minha verdade,
Mas sei que muitas vezes a minha verdade
Está errada.
Pois eu paro, ouço e se necessário mudo-a.

Fotografia

Resta uma formação
De cores logicamente
Aplicadas, de acordo
Com o meu mundo.

Vejo o que quero ver
E não o que vejo.
Confundo realidade
Com verdade e isso
Deixa-me nervoso,
Um pouco irritado até.

Faço uma aproximação do tamanho
Do universo…
Que contradição absurda!
Pareço um modelo irracional.

Gosto de captar a sensação,
O sentimento.

Gosto de tirar fotografias
A mim próprio.
Rio-me sempre com elas.
Não significam nada mais
Do que aquilo que é uma
Fotografia. Apenas uma imagem.

Gosto de matar saudades
Do meu melhor amigo.
Tão perto mas ao mesmo tempo
Muito mais longe.

Nós até gostávamos um do outro.
Eu tentava proteger-te, agora já não
É preciso.
Às vezes sinto falta de nós.
Mas ninguém vive da saudade.
É melhor assim talvez.

Nós até tínhamos graça juntos.
Pode-se rasgar uma fotografia.
Mas também se pode voltar a colar.