domingo, 8 de abril de 2012

a Distância dos heterónimos


Tudo o que narro são mentiras
e são verdades.
Porque tudo o resto não interessa.
Tão pouco as mentiras
com o seu grande corpo de verdade.

é quase concreta esta força da fantasia..
Mas ao inspirar, ao inspirar realmente,
este é um perfume que já não existe,
é como tentar, por entre as árvores, sentir
a maresia longínqua. Abrir os olhos, sonhar,
fechar os olhos, morrer.

escolher não ver é tão grave como
fugir sem certeza de mais tarde voltar.
A cada passo dado na negação
mais sonora é a gargalha do diabo,
entrego-me a este vento, a outra vontade
qualquer - que não a minha,
como dados aleatórios numa mão.

azar e sorte presos na mesma matéria que oscila,
alguns são os escolhidos, eu escolhi escolher.
sem probabilidades, sem razão aparente de se ser,
quase tudo espalhado pelo chão, outros versos
amontoados, mais pedra do que areia,
queimaduras, e toda a falta de exactidão.

neste ódio que tudo abrange,
da mesma forma que o amor
se agarra à carne junta aos ossos
que a realidade deixou,
respiro frio, é frio que respiro
desejando acabar com a pior escolha
que pode ser feita:
forçar uma verdade a transformar-se
numa mentira.


Tudo o que narro são mentiras
e são verdades. Nunca me esquecerei,
pois quando me esquecer
é porque morri.

sábado, 31 de março de 2012

sacrificial lamb

Um grande sacrifício por um bem (tão) menor.

Tanto por tão pouco, envelhece o sol
só depois de muito tempo;
As memórias foram rasgadas,
escolhidas para serem perdidas,
talvez alguém as esqueça.
Dança a dor, em forma de serpente,
serpenteando cada membro do corpo humano,
até chegar à boca...
a Morte é o fim, e nada mais resta,
só por hoje, só para sempre.
Chega à boca, finge fugir para fora
do alcance, Porque o controlo dos
pensamentos não é nosso,
porque o coração engana
o inocente e o culpado.

Poderás deixar tudo para trás? Porque
não podes lá voltar, nunca mais...
Tem de ser deixado, mesmo não se
podendo voltar.
Existirá desta vez uma terceira
face da moeda? um Terceiro olho?
uma aresta na esfera?

Porque é só isso,
pequena obra prima, como tantas outras,
só que única, desde sempre até sempre
perfeita... e Não é só agora, depois
de tanto e de tão pouco, sem felicidade aplicada
à realidade, que penso assim.

Mais perto, onde o perfume magoa
os olhos de tanta loucura,
onde o sangue atinge a seiva
da árvore com a raiz mais profunda.
a faca desce, - verdades dessas,
certezas pouco provadas ou incompletas,
são um ferir rápido, são um ferir fácil,
estou onde estou, não onde devo estar,
como outro, como outrora,
Preciosa Criatura Sacrificada - Por Um Bem - Menor.

sábado, 17 de março de 2012

o Outro deus


a felicidade acaba agora e nunca.

um machado rasga os céus,
talvez ainda seja cedo para chorar
pelas ruínas que tardam em ruir.
Esse dia em que o sol encaixa
perfeitamente na lua,
em que o ego é moldado
à força dos outros,
esmagado por um martelo
tão diferente...como se tudo isto
fosse obra das mãos de outro Homem.
Mas não há outro Homem.
Uma fonte brota os fluídos mais puros,
desde o suor ao sangue, à água,
escasseia o odor da esperança,
pela fome de um último suspiro
semeiam à pressa sentimentos em terras
áridas, em terras mais verdes,
mas a tempestade levará tudo.
É a luz, é o medo,
é a criatura mais tímida a dar
os primeiros passos,
de um lado uma espiral
do outro uma Caixa,
qual é a escolha final?
Entre ter tudo o que sempre se quis,
Ou vacilar sobre a verdadeira conquista.
Até que o tempo congele
é marcado a lâminas
uma frase na pele
que nos faça lembrar:
amar é errado caminho.
Queremos ser mais pequenos,
de alma resguardada, rosto escondido
à sombra da escuridão.
os olhos nada dizem, já se habituaram
a este ambiente.
são titãs e deuses numa luta de Eras,
com Homens a brincar
na mesma força de Deus.
Tanto engano. Tamanho engano.
Tanto empenho por nada. Que se esgote
a vida por tanto nada; que se festeje a morte,
São as nossas vidas, é a nossa vida,
é o ranger, é o rugir, da verdade que paira
à nossa volta, tudo reflexo
de um deus de dentro.

quarta-feira, 7 de março de 2012

do Sol

na dura entrega à luta
pelo nascimento da criança,
foi o despertar das trevas;
donde sonhos e expectativas
passaram a derrotas e apatias,
sem nunca dar luta, oferecendo sempre tréguas.

na dura balança,
onde a evolução não avança nem cresce,
onde a frustração pesa de mais
pois a perfeição é algo que não se alcança.
E o movimento fica preso e parado,
o medo sufoca o possível, o que sempre foi possível,
por uma lava que corre nas veias de cada orgão
por uma alma que não tem descanso
mas que nunca se cansa.

Não importa o calor que aquece as três faces
da moeda; o frio que invade por de baixo da pele
que penetra carne e atinge o imaterial,
é um amar sem verdadeira entrega
nem sequer é amor,
é um matar sem consciência mas com rancor,
nem sequer é morte.
Afastar o sol ou abraça-lo
é tudo o mesmo;
é escolher entre o horror sincero das trevas
ou o verdadeiro queimar intenso
que para com a destruição não dá tréguas.
Nasce o dia.

terça-feira, 6 de março de 2012

a Chuva

Uma tempestade mental faz
pensamentos embaterem em pensamentos,
No céu as nuvens combatem por encontrar
um espaço onde possam viver sozinhas,

mas as nuvens não foram feitas para estar sozinhas,
e os pensamentos combatem, gritam até que um e só um
se eleve, se torne melhor que todos os outros...mas todos
gritam.
E no céu é libertado o trovão e o relâmpago,
anunciando todo um silêncio, uma paz ansiosa
que se propaga...

Uma gota de lágrima rasga o olho.
E esse frio cresce, estás deveras vivo,
demónios tocam a mão esquerda, tentam subir
e os anjos acariciam os dedos da mão direita.
Todos ao mesmo tempo, no presente,
do futuro ao passado, do que foi ao que podia ter sido,
ao que é.
O olho rasga-se. Escorre pela face.
Desce do céu até ao chão, até à janela
até ao cabelo.
Começa a chover.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A vez


Desde ontem,
desde hoje,
amanhã.
Desde o dia.
Até ao dia.




(by fibonacci's theory)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

confissão moldada


o Homem entrou no momento certo,
de olhos no chão, não fingindo interesse
pela carne ou pelo bem material...
Humildemente, por vontade própria,
entrou, e confessou..

O anoitecer da alma chega,
traz com ela o receio da destruição interior
é um duelo sem trégua à vista
onde cada movimento acaba
em solução sinistra.
Está tudo disperso.
o terror invadiu cada partícula
do físico ao escondido intocável.
O arrependimento ou a dor
a fome num alimento envenenado.

Só, confiante na tristeza, na incerteza
dos passos que não são dados
com clareza - vontades e saudades
são como suores frios
palavras e gestos são
preenchimentos vazios.

o Homem saiu no momento certo,
de olhos no chão, com uma fome imensa
por carne - o rasgar, o tocar, o saciar;
um desejo por alcançar tudo o que se pode
e também pelo que não se deve desejar.
A humildade foi deixada para trás,
saiu por obrigação, jurando nunca mais voltar.
A falsa paz terminou, esta é a guerra verdadeira,
a única que o satisfaz. Solto das amarras,
solto dos sentimentos dos quais é capaz,
Viverá para sempre, agora consciente de que sempre foi

um monstro.
 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

a fome da Leviatã

Grilhões pesados, fixados na mente
fixados no corpo...
uma imagem de culto, um respirar cansado
de quem já viveu de mais, de quem já procurou de mais,
O pensar beijou o sentir - surgiu o terceiro olho,
atingiu-se o sexto sentido.
o pequeno deus, o pequeno ser, cai morto.

Não se podem esquecer que os demónios
também precisam de alimento.
São sete pequenas criaturas, são todas as outras.
Na imortalidade das Eras
esquecem-se as mais importantes quimeras;
é a besta do horror, a fera que consegue rasgar o sol,
o céu e o mar são vermelhos...
A última lança perfurou a salvação?
Está escrito na pele, está envolto em veneno,
por hoje nada se faz, tudo se fará amanhã...
Não foi cedo, talvez tenha sido tarde..
Já está alimentada a Leviatã.

Arde o desejo nessa dança
à luz das chamas, à luz das trevas,
A verdade do espírito é pobre, é podre,
e que não se passe de hoje
sem que as ruínas virem cinzas.

Os meus irmãos, para os outros apenas imagens e escrituras,
as mais diferentes, as mais monstruosas criaturas,
rastejam, sucumbem,
a culpa não é de mais ninguém
mas agora já é tarde, estando-se vivo
é impossível ir embora...
Fomos destrancados da Caixa de Pandora.

domingo, 22 de janeiro de 2012

before I forget



o Silêncio é abraçado,
a Solidão aceite, convidada a ficar,
amada, é um fado já conhecido;
astuta maldade, peculiar mediocridade
tão imperfeitamente escondida.
e o Silêncio é firme, assim como tudo o resto
a escrita é apenas mais um crime.

fraca ilusão, devorada ao extremo,
sem restos de carne, sem restos de ossadas
por devorar. Terão sobrado cinzas.
a perfeição de um círculo
marcada num terceiro olho; tão fechado,
Num Engano - a monstruosidade não espera,
já escorre sangue do pescoço do cordeiro.
Tudo começa com um suspiro, que se expande
num arrepio que percorre todo o corpo.

olhem todos em frente. apenas em frente,
a luz que ficou para trás já se perdeu..
um objecto estranho cravasse no olho,
e a dor? Suporta-se. E a mudança?
Ah mágoa dessa vida, Ah vida.
Nada é o que parecia ser - enquanto letras soltas
se dissolvem, e sobram partículas
minúsculas espalhadas o suficiente
para que nunca mais se voltem a juntar.
Chegará a hora
do Despertar de Pandora.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

a n i q u i l a ç ã o

Carne. Doce, amarga, carne.
é aceite a negação;
passaram tantos dias desde
que coloquei as minhas mãos à tua vontade.
Tantos dias. Dias para aprender,
a evolução nasce
na morte de todo e qualquer sentimento.
no prazer, na dor, na sua dança,
na exclusão de cada sensação.
como se fosse evitado o pecado,
um demónio exorcizado,
por todos aqueles que vivem
na ignorância mais santa, na dormência
mais santa,
- em nome de uma mentira sagrada.
E para quê?

Fogo e gelo; consciente do desespero
de quem já não devia cá estar. E para onde ir?
Não há sentido, não há lugar,
- é como se tudo estivesse destruído.
Perfeita a peça esculpida
a frio, faminta no barulho
alimentada pelo ódio que seduz o mundo
esquecendo-se do silêncio.
- Esse pedaço desassossegado, essa partícula d'alma.

..não me teria hoje lembrado, mas lembrei,
continua, continua, continua, ignora agora Esse suspiro,

não será longa a demora
do Despertar de Pandora.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

amonstrificação

do nada nasceu o tudo
mas o tudo pode mudar num só segundo.
a total destruição do todo que nos
rodeia, o desvanecer da ilusão,
a elevação da criatura mais feia.
Queriam o silêncio? Não o guardem então.

E eu minto, vou roubando e despindo,
como o vento e o tempo
sobre a árvore,
nessa hora de outono.

Embriagados por uma sede sem fim,
amaldiçoados com a melhor bênção,
em mim só sobra o cansaço.
Foi a luz em demasia, foi luz que levou
à cegueira, agora sobram somente as trevas.
Negras são as letras, pensados são os actos,
e não procurem mais - o abismo da incerteza
é aqui que mora.
o casulo aguarda até ao limiar
do Despertar de Pandora.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Mensagem de 'boas festas'

Este ano não vou gastar muitas palavras, pelo menos minhas. Sabe melhor ouvir duas músicas e as respectivas canções. Boas festas é o resumo. Lembrar que no Natal as melhores prendas não vêm embrulhadas, em papel pelo menos, e que é a altura perfeita para pensar um pouco mais nos outros, ou deveria ser. Quanto ao ano que aí vem...A passagem de ano interessa-me tanto como o desinteressante...O ano muda, mas não muda em nada, só aqueles que ainda não chegaram ao ensino superior (que todos os dias têm de colocar a data e a lição) ou os que diariamente, na sua função, têm de olhar para a data, é que vislumbram uma mudança muito muito pequena. O mundo não vai mudar, nem as pessoas...e se sobra alguma esperança no coração de quem gosta de sonhar, então é esta: uma quase folha de um branco pouco nítido para se começar de novo, ou algo do género. Dito isto, e com toda a honestidade que é possível a um monstro: desejo a todos um Natal feliz, com as pessoas que se ama por perto (de sangue e não sangue), assim como uma passagem de ano excelente, novamente com quem se ama por perto, mas valorizando ainda mais a frase: um ano de 2012 melhor ou muito melhor que todos aqueles que passaram até agora, todos. Obrigado.