quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

a n i q u i l a ç ã o

Carne. Doce, amarga, carne.
é aceite a negação;
passaram tantos dias desde
que coloquei as minhas mãos à tua vontade.
Tantos dias. Dias para aprender,
a evolução nasce
na morte de todo e qualquer sentimento.
no prazer, na dor, na sua dança,
na exclusão de cada sensação.
como se fosse evitado o pecado,
um demónio exorcizado,
por todos aqueles que vivem
na ignorância mais santa, na dormência
mais santa,
- em nome de uma mentira sagrada.
E para quê?

Fogo e gelo; consciente do desespero
de quem já não devia cá estar. E para onde ir?
Não há sentido, não há lugar,
- é como se tudo estivesse destruído.
Perfeita a peça esculpida
a frio, faminta no barulho
alimentada pelo ódio que seduz o mundo
esquecendo-se do silêncio.
- Esse pedaço desassossegado, essa partícula d'alma.

..não me teria hoje lembrado, mas lembrei,
continua, continua, continua, ignora agora Esse suspiro,

não será longa a demora
do Despertar de Pandora.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

amonstrificação

do nada nasceu o tudo
mas o tudo pode mudar num só segundo.
a total destruição do todo que nos
rodeia, o desvanecer da ilusão,
a elevação da criatura mais feia.
Queriam o silêncio? Não o guardem então.

E eu minto, vou roubando e despindo,
como o vento e o tempo
sobre a árvore,
nessa hora de outono.

Embriagados por uma sede sem fim,
amaldiçoados com a melhor bênção,
em mim só sobra o cansaço.
Foi a luz em demasia, foi luz que levou
à cegueira, agora sobram somente as trevas.
Negras são as letras, pensados são os actos,
e não procurem mais - o abismo da incerteza
é aqui que mora.
o casulo aguarda até ao limiar
do Despertar de Pandora.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Mensagem de 'boas festas'

Este ano não vou gastar muitas palavras, pelo menos minhas. Sabe melhor ouvir duas músicas e as respectivas canções. Boas festas é o resumo. Lembrar que no Natal as melhores prendas não vêm embrulhadas, em papel pelo menos, e que é a altura perfeita para pensar um pouco mais nos outros, ou deveria ser. Quanto ao ano que aí vem...A passagem de ano interessa-me tanto como o desinteressante...O ano muda, mas não muda em nada, só aqueles que ainda não chegaram ao ensino superior (que todos os dias têm de colocar a data e a lição) ou os que diariamente, na sua função, têm de olhar para a data, é que vislumbram uma mudança muito muito pequena. O mundo não vai mudar, nem as pessoas...e se sobra alguma esperança no coração de quem gosta de sonhar, então é esta: uma quase folha de um branco pouco nítido para se começar de novo, ou algo do género. Dito isto, e com toda a honestidade que é possível a um monstro: desejo a todos um Natal feliz, com as pessoas que se ama por perto (de sangue e não sangue), assim como uma passagem de ano excelente, novamente com quem se ama por perto, mas valorizando ainda mais a frase: um ano de 2012 melhor ou muito melhor que todos aqueles que passaram até agora, todos. Obrigado.



quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

não aceitar Para morrer



Quando me vejo ao espelho...Por vezes esqueço...
Volto-me a ver ao espelho..Importava-me ser...
Agora não me importa nada.

Delicioso é o pormenor da vida, enquanto é alimentada.
A obrigação de esquecer é pesada, sempre presente
fazendo recordar uma maldição que não deveria
pertencer a ninguém. Mas pesa, mas pertence.
Inglória batalha, o esforço suja o chão como se fosse sangue,
são olhos de uma tragédia que devoram a realidade.
Absorção de cores tão frescas, tão secas, tão tristes,
contrários quase belos, que vão derretendo...Parece
beleza, parece utopia, mas é ilusão apenas,
escondendo a podridão de uma morte já assimilada.
Ser-se em alto e baixo relevo na mesma peça,
culminar num fingido êxtase de sentidos;
não são sonhos a perseguir, não são sonhos já perseguidos,
são vazios eliminados e esquecidos.
a Quem importa afinal o findar da vida? o Receber da morte?
fraqueza, ausência de qualquer poder para recusar,
é o desespero, o viver do pesadelo,
é não conseguir.
voa agora, voa para bem perto,
para continuares a ver cada sabor e cada sensação
a fugir das mãos, por cada dedo, como se fosse areia,
preenchendo
ainda mais este deserto.
não são tintas vivas; é o cinza
é o preto, é tudo pincelado, é tudo esculpido,
é tudo descrição surrealista, por parecer estar tão longe.
a chama congelou, bela obra de arte, enquanto a rocha
ardeu, e ardeu tanto que se transformou em água...
são Letras, palavras, procurando unir: a teoria
à prática, o concreto ao abstracto,
o que mais ninguém Vê
ao óbvio que realmente é. Não se aceita, nem se sente,
nem se faz, e mais ninguém nota,
e por isso estamos a morrer,
É o motivo pelo qual tanta beleza E cor
se chama Natureza Morta.




(notas: agradecer as views do blogue, que passado quatro anos, ultrapassaram as oito mil; dar ainda a sugestão a quem tiver tempo (o dinheiro gasto é mui pouco e compensa) para passar na exposição "natureza-morta gulbenkian" que está lá até meados de Janeiro de 2012. Está excelente, e tomou conta deste poema, ou deste texto.)
( quadro de
Pieter Claesz )

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

esquecer E aceitar

Quando me vejo ao espelho
Não vejo quem sou, vejo o que os outros vêem.
Eu mesmo, sempre mais velho, mais desigual.
Um retrato pintado a tintas vivas que se mexe
ao sabor do tempo. Sento-me à margem desse rio enorme
chamado oceano olhando, sem fazer quase nada.

A paz que não detenho é uma paz inglória, nada fiz para a merecer.

(a música embala-me enquanto passeio entre hesitações)

Por vezes esqueço...
Seres racionais esquecem-se de amar...
E os que amam, esquecem-se de pensar...E depois,
Sobra sempre a ignorância, de quem não quer tentar.
Ou de quem vive tentando, sem conseguir.
No fundo, caminhamos todos para o mesmo fim...
Apenas caminhamos por estradas diferentes.

Esqueço-me...mas é a verdade.
Por vezes pensamos tanto tempo na maneira de fazer,
Que nos esquecemos de fazer de facto.

Volto-me a ver ao espelho...o que mudou?
Nada...cresceram-me asas negras, num corpo humano...
Ou serão asas brancas num monstro?
Nada. As asas mudam de tamanho, mudam de cor,
e apenas sobram restos de um corpo humano
num real monstro.

Importava-me ser...
E para já não quero ser nada.
Porque nada importa.

(não deixa de ser curioso que este texto começou a ser escrito nos últimos dias do ano de 2009. Nunca foi totalmente acabado. Desse pedaço inacabado foram retirados 'excessos' e consegui agora, finalmente, acrescentar outras partes. Não o sinto acabado, no seu todo; mas nem tudo pode ser substituído, e algo verdadeiramente completo é complicado de alcançar. Resta-me ficar 'grato' por ter tido aqui a oportunidade de corrigir e de melhorar algo, passado tanto tempo, quando nesta vida quase tudo passa sem essa mesma oportunidade...e às vezes em espaços de tempo mais curtos, ou pior ainda.)

domingo, 4 de dezembro de 2011

entorpecida aceitação

Como posso fazer isto de maneira a não estragar tudo? Pergunta o ser humano.
Não podes. Responde o monstro.


(mas)
a mentira é sensível, mas também sensata,
e na face desolada é finalmente compreendida
a desilusão. é falsa essa luz, é falsa toda e qualquer luz
que finge roubar o lugar às trevas...
Mas que trevas? Mas que luz?
Se na visão que negam
falta a verdadeira observação?
olhos e rostos, que fogem
que se curvam
em direcção ao chão...
(mas) , é tão fácil cair nesta realidade
como noutra qualquer. (mas)
os olhos não vêem mais luz
se está escuro o coração,
e nessa mesma paisagem
da mais mundana
à mais diferente
os olhos não sentem a vastidão, tudo é finito,
tudo é fechado e triste,
tudo somos nós.
E às vezes só sabemos que algo já está morto
quando já não o sentimos vivo.

domingo, 27 de novembro de 2011

divagações

certezas
um dia desses, que passou exactamente como todos os outros que têm passado, fui abordado sobre esse tema tantas vezes sublinhado, recontado, exaustivamente estudado por todo o género de pessoas. O sonho, O fazer. É incrível. Este animal que rasteja com duas patas, que lutou por rastejar de pé, pensando estar em constante evolução (amarga ilusão?), consegue ver várias faces da mesma moeda, como também consegue não ver moeda nenhuma. É mais fácil fazer do que sonhar. Não nos cortam as ações, mas cortaram-nos a imaginação, a realidade que se queria alcançar...foram quedas constantes, más palavras em ouvidos por si só já cuidadosos, não querendo sofrer outra vez, e outra vez para nada. Não se sonha porque se teme sonhar. Sonhar e fazer é complicado. Não há asas, não há força para moldar asas. Sonhar é perder tempo; fazer é reforçar o tempo que se perdeu. Vive-se. Eu pessoalmente, fugindo de utopias, escolhi a terceira face da moeda. Posso não ser a pessoa mais honesta para comigo, quando me observo com olhar atento, mas a perspicácia com que olho o redor está trabalhada, é trabalhada constantemente. A resposta só poderia ser uma, só é uma, concluí enquanto abraçava toda a humanidade. É mais fácil sonhar do que fazer. Sonhar? Todos sonham; e quem não sonha está 'morto'. Mas é difícil mexer tudo aquilo que não seja a imaginação. É trabalho árduo, mesmo que o motivo desse movimento seja colocar dentro da realidade aquilo que se sonhou.
Utópicamente, se não me tivesse já desligado de toda esta triste realidade, dos atritos, das falsas esperanças, teria a certeza única - como já tive, que sonhar e fazer...é demasiado simples para quem anda com duas longas patas.
crenças
recentemente fui também abordado, de forma rápida e simples, mas de forma suficientemente concisa para revelar esse aroma de romantismo humano; não se fale de morte hoje!, não se fale da vida em si!, fale-se sim sobre o destino. A suposta existência de um destino é um lugar perfeito para se descansar ou para se morrer de angústia depois de tanto sofrimento. Para alguns, um escape perfeito pelos seus actos; para outros a justificação 'plausível' para finalizar todos os argumentos. E agora? Mas o livre arbítrio é tão mais forte, poderá de facto existir tamanha força capaz de derrubar a liberdade de uma raça? Uns dizem que não...outros acreditam que sim. Que as estrelas sabem e por vezes mostram o caminho...a palma da mão. Por momentos deixei-me novamente ser um pobre romântico, no que toca a estes pormenores; e talvez, digo talvez porque enfim, nestes assuntos não há preto no branco ou tão pouco branco no preto, a resposta seja a harmonia entre as duas possibilidades. Talvez exista de facto um caminho (ou vários caminho com sub-caminhos) marcados...algures. Só que ao mesmo tempo existe o livre arbítrio. Contradição? (Ainda) não. Não é por alguém que conhecemos estar numa multidão que a conseguimos distinguir dos outros, certo? O destino está lá. E o livre arbítrio também. E na minha romântica opinião, ou noutro tipo de opinião, é aqui que entram os chamados sinais. Sinais é o nome que lhe dou. Mas existem outros, e existem vários tipos. Ou seja podemos aceitar o caminho 'escrito', entrar e sair dele, ou nunca entrar, parte de nós, a liberdade talvez seja nossa. Aceitá-lo ou escolher outro, a nós cabe somente.
certezas ou crenças, ou a falta das segundas, ou o excesso das primeiras, pouco interessa, tudo são divagações.

(à divagação com Joana Henriques e Liliana Girão)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

old solution

a ira surgida na força
das entranhas de um vulcão,
somente o mais cobiçado
a coisa mais valiosa
pode passar de carne a ilusão
a cinzas para sempre encurraladas no chão.
que se revele o rosto divino
nas ações deste ser humano...
o sol ainda espera a vossa aproximação.
a vontade não passa de um sonho
demasiado pesado para se poder erguer,
agora é tarde demais para
fazer calar as nuvens da noite escura,
e não importa o quanto se quis viver
se viver foi esse respirar em vão...
Crente tão crente na desacreditação
alimento e alimentado na destruição.
Para retornar à essência mais pura
e à forma mais viva, mais sentida
só existe uma solução

é queimá-la, consumi-la - na procura
de uma absolvição.
é como outrora, como agora
é para sempre
senti-la destruída.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

sentimensar

...e os dedos tocam o abstracto, aflitos por uma realidade concreta..

Concreta e quente, só ela
realmente capaz de apaziguar o inverno.
Tocam uma face vezes e vezes
até ao número mais longínquo.
Coisas tão delicadas.
Ganham uma força quimera
para apressar o tempo, para o abrandarem
Eu não saio daqui, sei agora que nada mais vale a pena,
porque ele está à nossa espera.
Uma lágrima seca é como uma palavra que foi engolida,
e esta vontade, depois de perseguida, cai morta,
e sobra um olhar cor de raiva
ou um olhar consumido na mágoa. É um querer
sem resposta, é uma morte que já tarda.
A queimadura ajuda a limar o gelo, acaricia-o,
e a perfeição parece tão fácil de alcançar.
Tocam uma face, vezes e vezes, e outras vezes
sem conta, saudades de reencontrar,
num sentir único, num esquecimento
que não consegue pertencer a este lugar...
Eu sei, o gelo mais perfeito, lima-se a frio.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

coisas delicadas


It seems what's left of my human side is slowing the changes in me ..

Falta de inteligência, excesso de dormência,
vulgar é a essência - pequena coisa delicada;
são as histórias das mil fadas
as milhares de vidas ceifadas
através de ordens tão calmamente suspiradas...
É o ódio que renasce, que nunca desapareceu
completamente, é a ganância em querer ganhar
mais do que aquilo que não se precisa,
é esta raiva indecisa à procura do seu lugar
para se soltar.
Coisas tão delicadas.
Não se trata só de ódio, ou de ausência de amor,
é um terror constante de impotência,
em rituais, em círculos,
que se prolongam ao infinito de uma vida mortal.
e Não se pode fazer nada. suprimido é o grito,
engolido nas entranhas das camadas
mais estranhas do nosso ser, um corpo
sentindo-se ser enterrado vivo,
a morte do melhor momento
no rebentamento enorme de um
explosivo escondido,
é fechar os olhos à luz, abri-los lentamente
para as trevas...é rezar em silêncio
para um silêncio que dorme no frio.
é esta falta do que não está, do que não vem,
tudo numa caixa, fingindo esperar fechada
enquanto esse veneno, essa matéria corrosiva
vai consumindo o vosso humanismo
- cada sentido e sentimento;
enquanto a mim
me aproxima do verdadeiro
e inteiro monstro.
Coisas tão delicadas...


( 10 000 days - inside album cover
(Alex Gray) )

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

sanidade imperfeita


Ninguém sequer suspeita de que o sonho não é nenhum absurdo,
e sim uma realização de desejo.. Freud


...que simplicidade complicadamente amarga;
podemos já não ser quem somos
- nesse suave engano, mas podemos sempre
relembrar, e a lembrança vem, destrói alicerces
de um presente que parecia tão seguro
- nesse suave engano.
Tudo parece estar no local correto,
na função do movimento e das palavras
que devem ser conduzidas, tão calmas...tão à
flor da rotina. Tão nossas? E porque não..
Mas a sensação amarga é mais forte
do que qualquer olhar que consciente evitou
a realidade, adiantará fugir? Mas o Homem
foge, e foge tão bem...
...ainda mal.
é um estado comum dos corações,
famintos, preparados para devorar riscos
que possam aparecer; desejando quebrar
leis e regras e tédios e formas como se viviam
vidas - Por Tudo, Para Tudo, até que neve
corra nas veias em lugar de sangue,
até que o desejo seja só um, até que a escuridão
cresça e faça o que tem de ser feito - a última aproximação.
é na sanidade que se caminha, dizem,
e então? se é para caminhar perdido em cada
transição, perdido na tradução num diálogo de almas
que aos poucos deixa de fazer sentido,
afinal o que pedem? o que negam? Do que fogem?
uma criatura, um monstro, uma besta,
a fome possuída por outro grau de amor,
talvez maior, talvez igual,
suspendeu-se, ao embater com tecido
tão fácil de rasgar, - a vontade de saborear
e avançar na evolução era deveras enorme,
mas este não era um tecido qualquer...era
o tecido mais perfeito, e cada embate
de tecido, de sabores, de carne,
e de sentimentos, como tanta outra coisa
para falhar numa amarga sanidade imperfeita.

domingo, 6 de novembro de 2011

Remember about your darkest moment

“I don’t believe in angels but I do believe there’s a constant struggle between light and dark in the world. Who knows, ... Maybe sometimes the light can win out. In my experience, darkness usually prevails.” – Dexter
desceu ou subiu à Terra, nesse momento esplendoroso,
tanto por sentir, do mau ao pior ao mais aceitável,
tanto por viver, absorvendo vidas
enquanto se é absorvido por tudo o resto,
não são só criaturas monstruosas com os mais diferentes
disfarces...é a sorte maldita que reina nos silêncios
dos escombros, que o barulho embale, até que
o sono eterno ceife o que restava da respiração.
é o fraquejar das forças, forças colocadas em
favor de um bem maior e de um bem menor,
é demasiado tarde para juízos de valor,
é demasiado tarde para acreditar.
a balança não obedece à nossa vontade, mas tão pouco
à verdade, é como se a corrupção fizesse
parte de cada coração, ao redor, no interior,
não existe justiça até à morte;
não é obra da imaginação de ninguém,
e bem que se tenta imaginar outra realidade que não esta,
mas só sobra abraçar esta sombra, a única
coisa que é justa na confidência, na entrega,
dureza realista, constante na consistência.
Ceifa, o que houver para ceifar, assim que possível.