segunda-feira, 14 de junho de 2010

A beleza da felicidade

Eu pus, e Deus, para mostrar que está lá, dispôs. Quase poderia dizer: cheira-me a ironia. Logo a mim, logo eu. Eu e a ironia estamos destinados. Mas pronto passemos ao texto corrido.

Cheguei à faculdade. A minha amiga foi ter com outros colegas, eu fiquei cá fora a fumar. Estava sol, (ainda não estava frio), e eu deixei-me ali, sozinho, a receber sol nos braços, na cara, na cabeça. Deixei o calor invadir-me. Eles estavam na biblioteca. Cheguei à biblioteca e lá estavam, dois homens e a minha amiga. E ao lado, uma rapariga, que já conheço há algum tempo. Comprimentamo-nos sempre, nada mais. Mas hoje olhou-me com um brilho no olhar, com um sorriso, daqueles, especialmente grandes, honestos. Fiquei meio parvo (mais do que aquilo que já sou). Mas também dei um ar de minha graça. Ao inicio não compreendi. Eu estava igual a sempre. Estava tudo igual. Mas depressa, para meu alívio, e também felicidade, viria a descobrir tudo. A rapariga está muito longe de casa. E tem andado numa fase complicada. Por isso o dia de hoje, nesses minutos, foi-me satisfatoriamente gratificante.
Toda ela sorria, estava liberta, feliz, animada, como se a sua vida de um momento estivesse mais iluminada, muito menos escura. Foi fantástico. Quem me dera estar no lugar dela. Mas agora é a vez dela. E ela aproveitou bem.
Alguém convidou a rapariga para ir fumar lá fora, (ela é fumadora), mas ela recusou com um grande sorriso. Disse que depois ia, agora estava "entretida". Sei bem o que isso é. Estarmos de tal forma "preenchidos" para deixar esse vício patético para outra altura. Para quem não fuma pode parecer insignificante, mas não é. Percebi pela conversa que estava a falar com alguém na Internet. Ah, aí tudo fez sentido. As pausas, os sorrisos rasgados, as gargalhas miúdas, aqueles momentos de espera a sorrir para o ecran, à espera da resposta, do elogio, da pergunta, da certeza, da conclusão, aquele olhar sonhador, tudo fez sentido, tudo se encaixou. As vezes íamos trocando olhares e íamos sorrindo, ela mais do que eu, e cedo ela apercebeu-se que eu já tinha percebido a situação, por isso já não disfarçava a felicidade. E ia-se sorrindo de forma farta, sempre com os olhos brilhantes. Quando a minha amiga colocou conversa com ela é como se alguém lhe tivesse pregado um susto para esta realidade, e ela, consciente que não parava de sorrir sem parar, sentiu necessidade de tapar a boca com um cachecol fininho, para disfarçar o grande sorriso. Achei graça.
A beleza da felicidade. É um facto, a felicidade tem em nós um toque mágico, tão genuíno, sem possibilidade de enganar. Pode existir ou não explicação, mas é algo que se sente, que se reflecte. É todo um ar à nossa volta, como se fosse uma aura, um brilho nos olhos, uma leveza...Eu sei lá, tantas coisas. Apesar de ter venerado estar na sua situação fiquei feliz por vê-la assim, basicamente, feliz. Muito feliz...
A felicidade tem uma cara, uma cor, muito concreta. Tenho saudades.

Espirais?


Nós pomos, Deus dispõe.
Não podemos ter nada como certo. Talvez só a morte.
E o amor de sangue, que não muda nem com o pior nem com o pior,
é constante, é certo.
Não posso dizer desta água nunca beberei. A vida ensinou-me isso. Por isso não posso garantir quando me vou embora disto tudo, como se fossem umas férias. Ando meio desaparecido dessa terra da inspiração, das ideias novas, das ideias renovadas, dessa espiral.
E podia dizer aquilo que ainda quero fazer. Como se fosse um plano escrito, para ser seguido à risca. Mas não sei.
Quero falar no Reflection, sinto que ainda posso falar muito sobre isso. Quero escrever sobre uma terra bela. E quero por fim, falar sobre o anjo caído. Três textos e vou-me embora. É só isso que quero para já. Mas é como disse...Eu ponho, e Deus dispõe-me. É a vida. Vamos ver o que consigo fazer. Um passo de cada vez? Talvez, já não sei.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Os barcos não servem só para ficar agarrados ao porto

E não servem mesmo. Mas isto nada tem haver comigo. Não neste momento.
Ando a viver na sombra da responsabilidade. Tardo-me, mas talvez já não falte muito. Depois vem o arrependimento, que mesmo não matando vai doendo.
Já estava vazio ou estou-me a esvaziar? Quem sabe, talvez esteja cheio, ou talvez apenas esteja a sonhar. Devia fazer. Mas não faço. É muita informação para ser armazenada em tão pouco tempo, sempre a mesma coisa. Ainda vou a tempo? Talvez. Isto não é destino, não é má sorte, é apenas mais um defeito meu. Julgo outros, mas acabo por sofrer do mesmo.
E fazes? Vou fazendo, foi a resposta. Que tristeza.
Persistência? Força de vontade? Sempre. Mas muitas vezes deixo coisas importantes passarem ao lado.
Por isso vou abraçando quem gosta de mim como sou. E abraço mais ainda quem me aponta a verdadeira porta, quem pega em mim quando é necessário, para perceber o meu objectivo.
Não estou confuso. Não estou perdido. Estou apenas parado. É uma opção. Talvez a mais errada. Talvez a quase certa.

Invento palavras e absorvo sensações. Vivo-as demais talvez.
Talvez sinta de mais, e coloque demasiada força em verdades
relativas. Já tenho lido tanto, e tanto que me faz pensar.
Talvez só precise de acordar...
Ora bem, aparece de uma vez Descartes, dá-me um estalo,
tudo isto é um sonho não é? Passemos então à acção. Ou seja
lá o que for que nos rodeia depois de acordar...
Duvido. E agora também duvido-me.
É como se agora a certeza quase não importasse.
É como se agora a verdade fosse apenas mais algo...
Como se não passasse disso.
Então para que servem os barcos?
(Excelente pergunta)

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Tardio tributo a Aenima ( Aenima )

Desde sábado à noite que não consigo parar de ouvir esta música (assim como o Eulogy e o Judith, casos que compreendo), mas esta não sei. É uma grande música, sem dúvida. Talvez tenha uma letra mais focalizada para algo em especial. Mas mesmo assim...cabe muito bem em todas as sociedades. E o porquê de a ouvir sem parar? Ainda não sei. Mais uma música tipicamente dos Tool, com uma letra tipicamente desse "deus do vinho". Alguns demoram a compreender esta espiral, mas depois de a compreenderem olham para esta vida com um olhar mais sabedor, mais crítico, mais apaixonado pela realidade, o mau e o bom, o amor e o ódio. O que vos posso dizer? "Aprendam a nadar", pois o mundo está para acabar, e de uma forma ou outra, será com certeza acompanhado de muita, mas muita água...
Este foi talvez o videoclip que menos gostei. Talvez não o tenha compreendido. Talvez seja todo ele um pouco parecido...mas quero realçar, uma parte, em que um ser humano (aparentemente) coloca uma criatura (algo similar com um ser humano muito mais pequeno, entre outras diferenças) dentro de uma caixa. Depois, esse mesmo aparente ser humano vai mandando a caixa contra as paredes e chão, e a criatura, toda ela vai sofrendo dentro da caixa, sem poder fazer nada. Controlo. Poder. Capacidade para fazer sofrer, e para suportar o sofrimento. Lindo.
Julgo que quero dedicar este texto a duas pessoas. Mas ainda não tenho certeza. Mas uma delas será a minha mãe. Apesar de esta música mencionar de uma maneira as mães num sentido talvez exagerado, ou pelo menos, mais nessa altura em que somos crianças, o papel de uma boa mãe, acaba por ser mesmo esse: iluminar um caminho que nos parece escuro. E mesmo não deixando a minha iluminar-me de momento, já o iluminou em alturas passadas.
"Try to read between the lines!" By Tool e Sara B.
Que o mundo acabe, quando tiver de acabar...

Alguns dizem que o mundo vai acabar em breve.
Que seja. Mas terá chegado realmente a hora?
Não me interessa. Às vezes são necessárias
medidas extremas...
São sim.
Cortar todo o mal, (acabando por cortar alguns bens)
para o bem de todos.
Mas será a morte, o sofrimento, a verdadeira saída?
Já estive mais longe de acreditar dessa forma.
Não acredito que o sofrimento sirva para nos aproximar
dum Céu.
Não. Aliás, quase abomino a ideia.
Mas tem-me ensinado a vida
que o sofrimento ajuda-nos a crescer
a renascer, a elevar,
é como se diz: o que não nos mata
só nos torna mais fortes.
E nesse sentido, sim , acredito no sofrimento,
como algo que nos faz aprender,
a suportar,
a fortalecer.
Dizem que o fim está próximo. Óptimo.
Sinto-me tentado a parar, a desligar-me da minha
rotina só para o poder apreciar.
Somos seres ditos racionais...talvez sentimentais.
Mas às vezes parecemos pedras.
Às vezes somos puro gelo.

Tentem ler nas entrelinhas.
Mãe, faz desaparecer todas estas coisas que estão erradas,
que me fazem mal,
que me saturam,
que me deixam lá em baixo.

Todo um materialismo, toda uma importância dada
ao inútil.
Toda uma falsidade, uma hipocrisia.
Toda uma falta de ganância pelo que realmente interessa.
Futilidade autêntica.

E neste lugar onde estou eu:
choro pela chuva que vai inundar toda esta
tralha existencial, todo este planeta,
pelo cometa que cai dos céus e que cria ondas
que engolem tudo e todos...
Até que depois dos gritos, das orações,
de tudo o que poderíamos imaginar (mas que nunca chegaria)
reinasse o silêncio...
Um silêncio longo, talvez infinito...
Sem frieza. Sem maldade. Sem sentimento.
Tudo embalado num silêncio...

(Aprendam a nadar...aprendam depressa...)

Para o diabo toda esta gente!
Os que são iguais a mim e os que nada são parecidos!
Todos!
Venha essa água toda,
para terminar com o sofrimento de uns
e para tirar a felicidade a outros!
É difícil agradar a todos...
Só quero ver tudo a ruir, a ir a baixo,
tudo a sucumbir ao silêncio, ao fim.

E eu que até tinha uma sugestão
para vos manter ocupados...
Mas não me quiseram ouvir.

Deviam agradecer qualquer mudança...
Talvez porque sim.
E agora?
Tentem ler as entrelinhas,
(senão for já tarde de mais)
pois o fim aproxima-se.

Está tudo a acabar.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

As asas do demónio

Folheio o livro da minha vida...
Leio com dificuldade, pois a luz já é pouca.
Ainda tive tempo para relembrar muita da história antiga,
desde de paixões e ódios, quando gritei
e quando a voz ficou rouca.
Se vivi, então também morrerei.
O que mudou no mundo
e o que mudou em mim.
Respiro fundo. Sinto o ar entrar nas profundezas
da minha alma. Existirá retorno?
Sei que existe fim...
Recordo inícios, entretantos e fins,
Recordo o que se foi mantendo, o que sempre quis.
Mas a luz já está a ficar pequena...quase já não vejo.
Tudo aquilo que desejei e ainda desejo
tudo numa história que se foi alterando
mas nem sempre. Nem para sempre. Vai escurecendo.

Tiro os olhos do meu livro e procuro
a luz que se vai apagando...
E é então que fico com o rosto duro
vejo duas asas que se vão abanando
são negras, de um negro nunca antes por mim visto.
Terá chegado a minha hora? Mas eu ainda existo,
ainda quero existir. Acredito que ainda fazer mais
muito mais,
fazer sonhos transformarem-se em acontecimentos reais.

Não tremo. Medo?

Todos temos fantasmas, demónios, problemas.
E todos temos a mesma força necessária para os derrubar.
É fácil? Não. Raramente. E no entanto a força
está cá dentro. E quando não está
alguém a dá, alguém a reavive.

As asas do demónio batem com força.
O meu livro voa contra parede.

Numa voz estranha pergunta-me:
porque esperas?
O meu desespero ainda não chegou a esse grau.
quando desistes?

Não será hoje. Fecho os olhos,
e penso na acção. E penso em tudo o que ainda vai
ser dito e feito, racionalizado e sentido.
Abro os olhos. E volto a pegar no livro. Continuo a ler.
O demónio desapareceu.

Estás assim?

Uma mistura de :

"I would wish it all away
If I, thought I'd, lose you
Just one day...
So if I could I'd wish it all away,
If I thought tomorrow
Would take you away.
You're my peace of mind, my home, my center.
I'm just trying to hold on
One more day."

E:
"Oh well, whatever, nevermind..."

E outras coisas que faltam. E outras que não fazem falta. E outras ainda que não as sei.

"Estás assim?"
Um pouco de tudo ou um pouco de nada. Talvez não importe nada. Ou talvez importe tudo.

(Frases da cortesia de Tool (Jambi) e Nirvana (Smell like teen spirit)

terça-feira, 8 de junho de 2010

Prisão de silêncio

Falta-me algo. Sinto-o.
Tenho a certeza. Logo eu, que raramente
a encontro.
Falta-me algo.
Quando acordo para esta realidade
vejo-me a rir bem alto
e os que reparam em mim
chamam-me doudo.
E eu fico nesta vergonha
de ser considerado doudo.

É como se estivesse fechado numa sala
encostado a uma parede branca, sentado,
onde todas as outras paredes também são brancas,
um tecto branco, e eu vou-me sufocando,
e olho com atenção, a todo o segundo,
as paredes brancas, à espera que uma mancha
ou ponto que seja apareça nela...
Eu espero um sinal.
Porque eu espero sempre.
Um sinal.

Disseram-me que a dor é uma ilusão?!
PROVEM-NO!

segunda-feira, 7 de junho de 2010

domingo, 6 de junho de 2010

Contraditório espelho

O desespero de um homem nunca vem só,
Assim como o seu alívio.
Assim como o tudo.
Encontro-me assim, como outrora
se encontraram os homens e o Homem,
vítima da sua própria ganancia
nesse possível que se quis,
patético,
nessa pequena fúria
nesse mal e bem estar,
nessa paragem...
E no entanto ainda respiro.
A escolha?
A acção?
Argumentos usados.
Deus diz que para já não me quer
nem no Céu nem no Inferno,
está na hora de guiar-me para casa
...seja lá onde isso for.

sábado, 5 de junho de 2010

omen

Lembro-me como se fosse hoje.
Chegaste ao pé mim e disseste:
A elevação e sabedoria atingem-se através
do sofrimento e do choro.
Na altura ignorei-te. Estava demasiadamente
abismado com a minha cegueira, com a minha
arrogância. Julguei-me um deus qualquer.
E pedi que te calasses...Nada do que poderias
dizer me fazia qualquer sentido.
E foi então que tu te calaste.
Fez-se um silêncio na minha vida que me deixou
tão sossegado. Ai o silêncio. Veio. E veio
por muito tempo.
E mais tarde voltaste, com outra cara, outras filosofias.
Mas desta vez soube aproveitar-te. A minha arrogância
morreu...foi trocado por humildade.
E eu, finalmente estava pronto.
Estaria?
Não sei mas desta vez ouvi-te.
Disseste que é preciso perdermos, roçar a porcaria
tocar no lodo
respirar e cair no lodo,
para depois nos sentimos prontos para elevar,
sair dele,
voltar a viver e a sonhar.
Não és mestre, nem eu discípulo, mas juntos
aprendemos, e junto ensinamos.
Hoje ouvi-te. E tu pouco ou nada disseste
mas esse pouco ou nada foi muito para mim.
Entrou-me, mudou-me.
Olhas-me e dizes que estou pronto para voar
voar longe de Ícaro.
Eu tenho medo.
Mas o medo nunca me impediu de viver.
É então que ponho em dúvida várias certezas tuas.
É então que percebo que ainda não posso voar.
É altura apenas de soltar as asas,
mas soltar as asas de forma muito lenta
como se não tivesse vontade...
Tu não gostas dos meus gestos.
Tu não me apoias,
não me compreendes.
Quando dou por mim partiste,
e desta vez não foi pela minha ganância
nem arrogância.
Mais tarde voltas. Como se eu não soubesse.
Como se eu me importasse.
Perguntas-me se já comecei a voar. Dizes
que já é tempo, aliás atacas dizendo que já
se faz tarde...
Começo a temer-te. O que queres desta vez?
Mas tu sorris...dizes que é preciso perder tudo
para podermos ter tudo outra vez.
E aí percebo-te. E sinto-me livre, e até mesmo feliz.
Não me sinto completo, mas sinto-me feliz.
Agora, dizes-me, só te falta o H.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Uma despedida?

Hoje fui à Loja do Cidadão. Para quem não conhece é um local onde se pagam todo o tipo de contas. E como se não bastasse é onde se tratam de assuntos ligados à segurança social e onde se pode fazer o bilhete de identidade, agora chamado de cartão único. Mas este não vai ser um texto a bater forte na burocracia portuguesa...por muito aliciante que o tema fosse. Aliás já foi começado um texto sobre isso que ainda não foi acabado, será escrito quando encontrar mais necessidade. Enquanto a minha irmã estava a tratar do seu cartão único, e dado que todo o local estava cheio de gente à espera que chegasse a sua vez, vim cá para fora...fumar um cigarro e apanhar sol. Tinha dormido três horas e tinha o estômago feito num oito. Dores e mal estar. Cheguei cá fora e foi aí que assisti a uma cena peculiar.
Um casal despedia-se de forma tão intensa. Eram beijos e abraços, beijos e abraços e segredos passados ao ouvido. Fiquei triste. Tudo parecia indicar uma despedida de dias, ou semanas...A verdade é que não tinham vontade alguma de se afastar um do outro, como se estarem juntos bastasse, como se a simples ideia de se separarem desligasse o mundo...E veio um último abraço...e veio um último beijo. Neste caso os lábios demoraram-se um pouco mais colados.
A verdade é que não pude deixar de sorrir quando vejo o homem a pegar nas suas coisas e a dizer em voz alta: Até já.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Outra


Todos os dias passo por este "quadro" implantado na parede. Acho-o fantástico. Para mim é a coisa mais bela dessa terra cinzenta chamada Barreiro. É arte. Todo um desespero, por "carregar", por viver neste mundo. A vida é uma porcaria ou é bela? Ou é um pouco das duas? Porque existem pessoas que têm a capacidade de alterar isto? Porque temos nós o poder de fazer o mesmo aos outros? E a nós próprios? Se ter razão bastasse...Se ter sonhos bastasse. Se apertar um coração nas mãos para o por a funcionar novamente bastasse...E talvez baste. Depende das pessoas.
Tudo nesta vida depende do valor que damos às pessoas e aos momentos e às coisas...Disse-o sempre, e direi sempre. E agora que entendo isso...sinto-me triste. Porque tem de ser assim? Tudo depende do sentimento aplicado. E depois? Depois não sobra mais nada, é ter força e imaginação para sonhar outra vez.
E se eu não basto então basta.

É outra manhã. O sol nasceu.
O sol brilhava. Eram dez da manhã.
Sentia em mim toda a alegria do fim de tarde
e da noite anterior. Está vivo. Estava feliz.
Em mim fluía a paz do mundo, o calor e o amor do mundo.
Como podem coisas tão pequenas valer tanto para mim?
Senti-me inteiro, preenchido, senti-me no sitio certo
como se tudo o que estava a viver fosse
aquilo que eu sentiria e faria durante o resto dos meus dias,
até ser ceifado pela morte.
Eu não podia estar mais feliz.
A sensação é tão forte, que mesmo uma má notícia,
não me iria abalar muito, como se naquele momento
toda a minha sensibilidade estivesse hipnotizada
para algo mais forte, mais importante.
Eram dez da manhã...o sol brilhava. E estava muito frio.
Muito frio. A temperatura quase roçava esse número que separa
o positivo do negativo.
Mas ali estava eu, quase despido, na varanda
a fumar um cigarro e meio.
Tinha frio?
Não me lembro.
Não me afectou.
Nada.
Tinha algo que emanava de mim, de forma tão segura,
tão quente, que nada, nem mesmo esse frio
que deixava os carros com geada me fazia nada.
Eu, estava completo.
É mais uma prova do sentimento.
Eu estava bem, e não queria estar em mais lado nenhum.
Mas foi apenas uma manhã. Outra.
Outra manhã, que está presa na minha memória.
E que me leva e me trás...me leva, eu deixo-me quase ir
feliz. Palmilhando esse sentimento outra vez...
Mas quando percebo que apenas é uma fotografia
eu volto...e volto sem nada.
E a tristeza abate-se. E toda a minha alma sacode-se fisicamente
como que para mandar para longe o pensamento que foi pensado.
E fico ali, na minha cama, a tentar ir esquecendo, a pouco
e pouco...até me perder da amargura da saudade.
E depois? Tento fugir.
E ao inicio custou. Ainda custa. Mas um dia, querendo ou não,
talvez deixe de custar.
Não choro por um dia que passou, mesmo sabendo
que não voltará a acontecer...
Choro por uma sensação que senti, como única
como duradoura, como delineadora de uma existência.
Se assim o foi, ou é, é assunto que para mim chega
ser sentido.
E tudo o que sou, fui-o numa outra manhã.
Um círculo perfeito? Eu senti-o e vivi-o.
Eles existem, cabe-nos deixa-los ser
ou termina-los.