terça-feira, 7 de outubro de 2008

Humanador

“Só acredito num deus que saiba dançar.”

Porque até lá respiro.
Subiste ao púlpito e gritas-te
O teu sermão para os teus
Fiéis. Eles gostam de ti.
Enquanto gritas, todos
Fingem prestar atenção.
E tu gostas dessa sensação.
Sofres e falas as tuas verdades
Em voz alta, com os sentimentos
Ao teu rubro, com uma força
De vontade tamanha que quase
Te chego a admirar.
Estou sentado na extremidade
Da sombra, tu sentes a minha
Presença e gritas ainda mais alto.

Alguns sorriem, ou acenam
Positivamente, tu começas a chorar,
Percebes que eles nada sabem de ti,
São apenas pessoas colocadas
No lugar certo para te fazer viver.
Dooooooooooooooooooooooooooooor!
Começas então a sussurrar
Para a única pessoa que te escuta.
E sussurras para mim.
No fim, só eu poderei dizer
Enquanto caminho para longe de ti
Se foste ou não uma desilusão.

Beleza artificial

Perguntaste-me certo dia
Até que ponto era eu real.
Disse-te que não bastava
O facto de existir, de estar
Nesse momento a olhar-te nos olhos
E a dizer-te ditos de amor.
Ficas-te sentada a olhar
Para mim, sorris-te
E fizeste-me o elogio mais
Original que me fizeram até hoje.
Disseste-me que tinha um aspecto confortável.
Ri-me e disse-te que a melhor
Prova de que existia
Era contar-te tudo o que já tinha sido,
Tudo o que era e tudo o que queria ser.
Acrescentei ainda, que seria desde logo
Mostrar-te todas as qualidades e defeitos meus.
E que contigo, se eu de facto existisse,
Devia abusar das minhas qualidades
E acalmar desde logo os meus defeitos.
Ficas-te satisfeita com a resposta
E continuamos a conversar.

sábado, 4 de outubro de 2008

Last day on earth

Visto deste meu actual presente. De certo faltam muitas coisas, de qualquer maneira nesse dia, mais do que em qualquer outro, o tempo passará a voar. Serio o meu. Como será o teu? Aproveita pois, como diz o povo, cada dia como se fosse o último.

“O que farias de diferente se o mundo acabasse amanhã, se exactamente ao fazeres algo diferente o mundo não acabasse?” (Bill Watterson – criador de Calvin and Hobbes)

Descobri hoje que tenho como últimas horas a réstia de tempo dos minutos de um nascer do sol até ao outro nascer do sol.
Acordo às oito da manhã e deixo-me na cama. Saboreio a sorna matinal no aconchego da cama. Sem alguém ao meu lado a quem possa acordar com suaves beijos, visto os calções e vou correr um bocado. Correr, pelo simples prazer de correr, sem qualquer meta, apenas até os músculos pegarem fogo e os pulmões fraquejarem é o que eu mais gosto.
O resto da manhã passo-a com os meus. Recordamos os velhos tempos. Choramos de tanto rir com histórias e fotografias antigas. Dedico um tempo especial à minha irmã. Ela merece-o. Damos um passeio agradável. Prometo-lhe que à tarde estará comigo na despedida da praia e do mar.
Volto para casa e despeço-me de quem posso através do computador e telefone. Vou ouvindo todas as músicas que posso. Almoço a melhor lasanha alguma feita por um português. Bebo água, a melhor bebida até hoje inventada.
Peço um momento a sós e passeio na minha rua. A mais comprida estrada lisboeta, a Estrada de Benfica. Não choro mas comovo-me, a minha rua e um último caminhar nela. Adeus vizinho e conhecidos, foi um prazer.
Reservo uma boa fatia da tarde para pegar nos meus verdadeiros amigos. Nunca vos esquecerei. Há três coisas que os verdadeiros podem e devem fazer: estar lá no bom e no mau, apoiar-nos quando estamos certos e corrigir-nos quando estamos errados. Por último filosofar ou rir até não podermos mais. Vamos de carro para me despedir dessa cidade mais bonita que alguma vez encontrei. A grande Lisboa. Colocamos uma banda sonora só nossa. Variada. Lisboa serei para sempre teu. Sentirei falta de cada pedra na calçada tão perfeitamente colocada com arte e engenho, dos teus monumentos, dos teus mendigos, lojas e paisagens. Lamento não me puder despedir de sítios tão belos como o Algarve, Sintra, a terra da minha avó e mais ainda do grandioso Porto.
Na praia aproveito a areia, a calma e o mar. Amigos de todos os géneros e família. É bom estar ali.
Tinha mesmo razão, tantas coisas para fazer e tão pouco tempo. De volta a casa faço uns últimos recados e janto esparguete à bolonhesa. Que posso dizer? Adoro comer e adoro comida italiana. A comida portuguesa ficará sempre no meu paladar, desde a feijoada, cozido à portuguesa, os enchidos, os peixes, as sopas. A melhor.
Despeço-me por fim da minha família, como qualquer viajante para a morte deixo uma mensagem especial para cada um.
Saio de casa. Uma noite enorme espera-me. Com os meus amigos vamos viver o que resta da minha vida.
Conversamos, bebemos álcool até ao estado de felicidade consciente e rimos.
De manhã corri, de noite danço. Dançar liberta-nos. Ironicamente parece-me a noite mais comprida que alguma vez já tive dada a diversão diversificada. Está quase a nascer o sol. Vamos até Belém enquanto saboreio um ‘final-fast-food’.
Ao pé do rio Tejo despeço-me de cada um deles e de todos em conjunto. Sento-me e acendo um cigarro. Este rio sujo é o meu rio. A sua calma espera-me. Sem ninguém a quem por o braço por cima do ombro penso em todos o que ali queriam estar. Mas se a morte pode ser silenciosa também assim seria a minha despedida.
Como todos aqueles prestes a morrer ou como todos aqueles que perdem alguém reduzo-me à realidade: quem me dera voltar atrás, quem me dera ter vivido mais, ter corrido até não poder mais, ter amado cada mulher como se fosse única e última, ter feito tudo de melhor que conseguisse. Não choro, gostei de ter nascido e amei viver a vida.
A banda sonora final? O pouco barulho do rio e os carros que passam. Porque nesta vida a banda sonora é incontável, para todos nós, uma mistura de todos os estilos de música. O sol vai espreitando e desta vez não abre a janela do meu quarto mas a janela para morte. Riu-me sozinho, depois do dia que tive hoje o que poderei mais ver nas visões ante morte?


(depois de ter escrito, de facto reparei, faltaram algumas coisas)

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Nunca lhe chamei vida utópica(6ªparte)

“Porque a nossa guerra é outra”

Está assim justificado o porquê de andarmos todos em direcções diferentes ou até mesmo opostas. Basta pensarmos que a nossa guerra é outra para seguirmos um caminho sozinho na maneira de andar mas inundado de pessoas que caminham famintas para uma meta qualquer, pessoas que se atropelam mutuamente e seguem as suas vidas. O tempo nunca pára e tu preferes caminha-lo sozinho, mesmo quando existem outros que te acompanham o pensamento e a alma. O ser humano é um ser social, as pessoas fazem falta às pessoas, o amor e amizade, uma empatia temporária ou eterna é essencial, então porquê caminhar sozinho? Para quê?

Está assim justificado o porquê de cada um caminhar por si próprio, de rosto tapado pela solidão, atropelando e deixando-se atropelar por outros: neutros, competidores, aliados. A nossa guerra às vezes é mesmo outra, mas quase sempre tens alguém que pode ajudar a trava-la. A tua guerra é outra? Que seja, mas deixa que outros iguais te ajudem a trava-la.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Coisas pequenas

O que tu sempre quiseste
Foi ter alguém para amar verdadeiramente.

E as coisas pequenas
Que para os outros não passam
De coisas pequenas
Para ti valem mais do que qualquer descoberta.

As coisas pequenas nada têm de pequeno
Apreciar o seu pormenor é das melhores
Coisas que podes apreciar.
Vives a vida procurando e por vezes
Encontras.

O que tu sempre quiseste
Foi ter alguém para amar verdadeiramente.

Lamentas agora que o passado
Seja algo que já passou.
Sentes saudade do toque, do beijo, da conversa.
Partes por isso, à procura de novas coisas pequenas.
Se são melhores ou piores não sabes,
Sabes apenas que serão diferentes.

O tempo demora-se a apagar
Fotografias de pequenas coisas antigas.
E por isso agora começas a construir um presente
Alicerçado em novas coisas pequenas.
Sorris, sabes que são coisas novas.

Saís-te da casca, ganhas-te asas, imigraste de local,
Descobres então novos gestos, maneiras de pensar,
Novas sensações, um novo tocar, lábios que não conhecias.
Tudo mudou de rumo, coisas pequenas saiem da tua vida
E entram constantemente, descobres que o que sempre quiseste
Foi alguém para amar verdadeiramente.

19/09/2008 -10:12 (Linkin Park desta vez ajudaram, thkz coelho * )

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Insónia de dormir(d'A outra face)


Davas tudo para estar aconchegado
Estares deitado com o teu amor em ti deitado.

Por outro lado não pregas olho
Dás voltas quase infinitas na tua cama…
Já nem te lembras do que queres
Se o silêncio da aldeia
Ou do barulho de carros sem rumo
Autocarros
E taxistas que gastam os pneus.

Não… O sono é para os fracos
Só os fortes lhe dão valor.
Vens à tua varanda
Fumas um cigarro para queimar tempo. O tempo passa
Mais depressa que o fim do cigarro.
A lua? Essa está igual a ela própria.

O que se faz quando o sono não vem?
Nada. Por isso mesmo é que não ter sono
É igual a outra sensação qualquer.

Culpado(d'A outra face)

Ouves o barulho da rua
Enquanto caminhas decidido
Ou de pés arrastados.
Algo te deixou enervado.
Ou és tu quem culpa
Ou és tu o culpado,
Mas o que interessa isso?

Pegas com as duas mãos
Na arma e aponta-la
Para o céu:
Neste mundo não há
Inocentes nem réus!
Se existe Deus não o vejo,
Se Ele não existe
Alguém vai ter de me responder.

Quero lá saber de todos,
Detestei ser bode expiatório
Agora procuro outro.
O culpado acabará por pagar.

Ninguém escapa impune
De fazer mal a alguém.
Quem pensas tu que és
Para mover peças
De um tabuleiro que nem sequer é teu?

Sou ateu só quando me dá mais jeito,
Prefiro procurar no dicionário
O conceito de perfeito.

Olhos cor-de-ódio-raiva
Faíscam, abusam da razão
Como se fossem sábios.
Os sábios já morreram
Viva a Era dos computadores.

Incomodo mais que preto
No branco e vice-versa,
Se queres encontrar o
Culpado não fujas e conversa.

A loucura é controversa
Mas quem é louco descobre depressa
Que só vale a pena viver
Sendo-se louco até morrer.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Confusão mental


Hesitam, não vos vejo a
Ter certeza.
Avançam, recuam
E escolhem diagonais.
Num raro momento de beleza
Decidem o vosso objectivo.
Depressa de mais
O tempo passa
E vocês no vosso passivo
Passado não passam
De seres sem graça.
O pouco que vejo
Deixa-me triste, sem fé.
O pouco que vivo
Deixa-me perder.
E dizem vocês, abstractos
Verdadeiros, que a morte
Chega em breve.
Pois então que chegue
Pois então eu abro-lhe as portas
Enquanto ela não se decide
A entrar, tento decidir
A minha certeza, avanço ou recuo
Ou decido o meu objectivo.
Até lá? Vivo.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Construção


“Quem me dera ter tempo para fazer tudo aquilo que quero, mas há prioridades na vida e são elas a quem me entrego.” (Mundo)

Começando por baixo
E subindo aos poucos
Como em toda a boa construção.
Encarando de frente os problemas
E estudando da melhor forma
A sua solução.

Eliminando a apatia
E desenvolvendo a empatia.
Um edifício não se faz sozinho,
Sozinhos somos pó
Juntos somos deserto.

Tentando sempre escolher a porta
A melhor direcção,
Aquando do erro
Corrigir com a melhor exactidão.

Não lanço ao ar a moeda
Esperando sorte ou destino,
Se quero, tento e faço
E construo o meu próprio caminho.

Há muito para compreender e para descobrir
Neste mundo que nos vive,
E toda essa jornada
Deveria ser aproveitada.

07/09/2008 – 18:00

Recado

Escrito no autocarro, depois de vir do meu part-time. Parece que falar ao telefone com pessoas durante três horas deu isto. Ou então não. Mas gosto do ritmo deste poema. Boa leitura.

Para as almas
Mais puras, para
As pessoas que se
Julgam boas,
Para os ilusionistas
Vítimas da ilusão,
Para os que pensam
Que dão o pão
Quando na verdade
O tiram.

Não se iludam,
Hoje pensam que ajudam
Mas amanhã pedem ajuda.

Continuo sem perceber
Porque reina a hipocrisia.
Às vezes até asfixia
Mas respondem-me satisfeitos:
É assim que funciona a vida.

Se querem realmente ajudar
Então mexam-se! Sejam activos praticantes.
Ajam com sabedoria.

Sou pouco humilde,
Julgo-me superior a vós?
Não...
Se já nasci assim
Ou se fui influenciado,
Não sei.
Mas sou igual a todos vós:

A mesma ignorância
Está-me no cérebro.
A mesma fraqueza
Nos músculos.
A mesma falta de ganância, a passividade e futilidade
Correm-me no sangue.
A mesma covardia mora
No coração.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Caminho para as trevas


“Confio em todos os homens, só não confio no demónio dentro deles”

Sigam-me enquanto vos guio
Para a escuridão.
As trevas nunca estiveram
Tão perto.
Caminhem unidos, deixem-me guiar-vos
Para a escuridão.

O Apocalipse aproxima-se,
Sem terramotos, sem ciclones,
A Mãe Natureza não pertence a
Esta equação.
É apenas o Homem e toda a sua
Capacidade no aperfeiçoamento
Da sua própria destruição.

Não temam, vocês sabem o que querem
Vocês sabem que tudo vos pertence.
Rasga, mutila, estripa, mata,
As leis de Deus e as leis humanas
Não passam de escritos ignorados.

Deixem-me guiar-vos para a escuridão,
A mesma escuridão que guardam junto ao peito,
A escuridão que não deixa penetrar luz,
A escuridão na sua totalidade.

Soltem o monstro interior que ruge
Dentro dos vossos corações cansados
De tentar mudar e de tentar melhorar um mundo
Já sem qualquer hipótese de melhorar.

Ignora o amor, revolta-te com a paz
E deixa crescer o ódio, solta-te.
Vejam que a escuridão acabará por chegar
Ajudem-na a chegar mais depressa.
O sofrimento é a porta.
Acabarão por chegar lá de qualquer maneira.
Deixem-me guiar-vos para as trevas.

Coisa ruim

Só posso dizer isto uma vez...

Trancado no meu quarto
Devoro agonia universal,
Sentado debruço-me sobre o papel
E o azul da caneta
Esboça o ódio que todos
Nós preferimos guardar.

Não se iludam, o inferno
Não nos aguarda,
O inferno já nos engoliu
Há muito tempo.

Enquanto perdemos tempo
Com inutilidades sem nexo
A coisa ruim já se instalou:
Preferimos criticar os outros
(é tão fácil apontar o dedo),
Preferimos continuar iguais
(é mais fácil do que mudar).

Paradoxo, eu mesmo.

Não morri na cruz,
Nem ficarei conhecido por morrer,
O calor de morte
Que me guia nestas linhas
É o mesmo calor
Que escaldou a mão
Do primeiro ser humano quando
Descobriu o fogo.

A raiva é consequência
Desta impotência existencial.

Exausto de vos ver
Sentados ou deitados
Na vossa passividade,
Prefiro escrever.

Positivismo? Esperança?
Palavras de ilusão…
O vento da hipocrisia
Apenas vos lança areia
Para os olhos…

O momento é o agora,
O lugar é aqui,
Pensam que vos falo
Em enigmas, pois serei
Simples,
Vejam-se ao espelho:
Eis a coisa ruim.

27/05/07