sábado, 26 de julho de 2008

Arredondamento(poema d'A outra face)

Sou mais versátil
Do que o vento.
Sou mais imprevisível
Do que a chuva.
Sou mais imundo
Do que a lama.
Sou mais frio
Do que o inverno.
Sou mais ilusório
Do que uma miragem.
Sou mais rápido
Do que a luz e o som.
Sou mais contraditório
Do que uma contradição.
Sou mais desumano
Do que toda a população.
Sou mais explosivo
Do que um vulcão.

Quando transpiras
Sou eu a tua ira.
Quando tu finges a verdade
Eu sou a tua mentira.
Quando rogas pragas
Eu sou o destino delas.
Quando a algo te entregas
Eu não fui o mensageiro.

Quando vomitas
Eu sou a dor.
Quando acordas
Eu fui o pesadelo
Quando não encontras palavras
Eu fui a inspiração.

Quando quiseres algo
Eu não te dou.
Quando deres algo
Eu não recebo.

A força da Natureza
É apenas um brinquedo meu.
Podes construir com esforço e trabalho
Eu destruo.
Tudo o que nunca foste
Eu sempre fui.

Este sou eu?
Não, isto foi apenas um arredondamento.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Poemas d'A outra face

Estes são dois poemas de A outra face. Adorei escreve-los. Fazem parte de um passado algo recente. Foram o ponto de partida para uma poesia mais "séria", não que fosse boa ou melhor ou pior, mas foi o inicio de um amadurecimento do sujeito poético em várias perspetivas. Aproveito e dedico, em sentido de homenagem e reconhecimento o poema Vivo hoje para morrer noutro dia, a Alváro de Campos. A ele e a Fernando Pessoa, à sua maneira dois poetas, o mesmo, o melhor poeta de sempre.

Vivo hoje para morrer noutro dia

Vivo hoje porque não quero
Comer suicídio assumido à sociedade
Pelo sangue ou pela dor ou não
Sentida.
Apesar da não-água que corrói
As minhas úlceras e gastrites,
Apesar do escuro que lanço para
Os pulmões, apesar de tudo.
Vivo hoje para morrer noutro dia.
Não me enfiem conquistas,
(Campos estavas tão certo)
Sejam lá elas do que forem.
Acho tanta graça a essa ganância
Pelo inútil, como vibram por mudarem
O acento circunflexo duma palavra esdrúxula
E adjectiva do verbo substantivo.
As leis modificam-se para se mudar
Algo…
Tantas complicações…Vocês só complicam,
Fazem compilações de complicações.
Continuo a dizer que sou diferente
Por ser um doente consciente
Assim como Sócrates sabia um
Pouco mais (um pouco mais dizia ele)
Por admitir que nada sabia.

Vivo hoje porque prefiro morrer noutro
Dia,
Apesar de saber que para morrer
Qualquer dia serve.
Vivo hoje porque sei que o passado
Já passou, e o futuro ainda não chegou.
A vida é o agora, é o instante é
O presente, tudo o resto?
Não faço a mínima ideia.

Impressão digital


Acordo todos os dias
Com a impressão
Que estou a mais no mundo.
Maldita a hora em que
Comecei a inalar essa substância
A que chamam oxigénio.
As razões do meu nascimento
São uma incógnita, até mesmo
Para Deus.
Sinto-me mais inútil do
Que o uma pedra que não respira
Não come, não se mexe, não fala,
Não dorme, não acorda, não ama,
Não ajuda e não é ajudada…
Sinto-me acompanhado
Como um grão de areia no deserto
Pois ninguém conversa e mesmo
Que conversassem apenas perguntas
Fariam.
Sinto-me frustrado pois são todos
Diferentes de mim, todos dizem saber
O que fazem neste mundo,
Todos sabem os seus sonhos e
Quais os que são possíveis de concretizar.
Prefiro um pesadelo a um sonho
Pois está mais próximo da realidade.
Realidade essa que desconheço.
Não sei ao certo se estou
Mais longe de mim ou dos outros.
Nasci e cresci, ponto final.
Nada trouxe ao mundo
E o mundo nada me trouxe.
Talvez apenas um pouco de desilusão.
Não que estivesse à espera de algo
Só não estava à espera disto.
Acho que não passo
De uma cara sem razão de alma
Num bilhete de identidade
Sem impressão digital.

sábado, 19 de julho de 2008

Sem rumo(dedicado)

Rosto ocultado pelas sombras
Num raro momento de calma.
Dói-lhe a alma no meio dos
Pingos de chuva que vão caindo.
O vento fustiga os fragmentos
De todos os sentimentos
Por ele levados.
Expulso do paraíso e
Expulso do inferno
Mas encara a vida de frente
Afinal a vida é isso mesmo.

É isso mesmo a vida
Ocultar as sombras no rosto escondido,
Andar fugido do mundo
Esquecido da sorte, perdido sem norte,
Sem rumo, sem lágrimas sem força
Apenas uma réstia daquilo
Que nos prende à vida…

Vida essa perdida em si mesma,
Onde procuramos a cura, o algarismo,
A metáfora…
Vida essa, graças a Deus, contraditória
E estranha.


Não que exista uma razão de inspiração, mas por ser talvez um poema que achei que irias gostar, de certa maneira podia fazer parte ou ser uma segunda parte da auto-destruição descritiva, por isso é dedicado à Liliana, espero que gostes. (também conhecida por "monstra das bolachas" ^^)

Aflição

De nada te valem essas
Lágrimas que pesadamente caiem
No chão.
Assim como de nada te vale
Gritares a plenos pulmões
Frases em vão.

Somos o que somos e pouco mais
Podemos fazer,
E esse pouco mais nunca o
Fazemos, por isso custa envelhecer.

A vida que nos incomoda
Todos os dias
É a mesma vida que tememos
Perder,
Por isso além mentiras
Custa envelhecer.

Porque o tempo anda
Sem parar ou retroceder,
Por isso a batalha que travas
É inglória até entenderes
Que a vida passa sempre a envelhecer.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Cumplicidade exaustiva

Sentado no teu trono
Descobres agora
Que não existe retorno.
Somos o que somos,
Tudo o resto são cinzas.

Não te afastes de quem és,
Vive e consome a vida
Até que esta se esgote.

Sem pensamentos a cores
Retorno à alma que sou:
Chuva num dia sem nuvens.

Não deixes que essa cumplicidade
Julgada especial
Te obrigue a viver sufocado.

Volta a abrir as asas
E desta vez
Não caias.

Nunca lhe chamei vida utópica(2ªparte)

Acções pensadas de um louco

Não vivo num mundo à parte de todos os outros nem os outros vivem num mundo à parte do meu. São dois mundos diferentes que caminham ao mesmo tempo. Saboreio o estudo simples da sociedade que me rodeia.
Gosto de apreciar cada passo mesmo quando este não é mais do que um recuar. O tempo nunca pára mas a vida avança e recua, não de forma poética como as ondas, mas de uma maneira originalmente subjectiva.

Não vivo num mundo à parte de ninguém, vivo no mesmo mundo que todos vocês. As minhas acções são pensadas como as vossas e as minhas acções são loucas como as vossas. Vocês são loucos? Eu sou e com algum orgulho. Ousei a loucura, é dos loucos o reino dos céus…

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Peça Moldada (ponto de vista da peça de barro)

Nasci com o direito de ser hipócrita,
E hoje sou uma pessoa feliz!
Graças a todos vós sou hoje
O hipócrita a que tenho direito.

As minhas lágrimas já secaram
À muito tempo.
Agora, depois de uma tortura
Imensa, agradeço e choro
De alegria. Obrigado.

Até me rio da pessoa que fui,
Um ser vivo sedento de vida
Caçador de sonhos
Que pensava e depois agia.

Mas agora, não graças a Deus
Mas a todos vós sou uma pessoa
Diferente.
Eu sei, o termo pessoa é demasiado
Desvalorizado...
Agora sou um deus, um deus
Hipócrita e sedento de mentira.

E mesmo sendo deuses não se
Consideram Deus porque esse mesmo Deus
Também é louvado por hipócritas.
Esse e outros.

Bendita esta civilização
Cheia de pessoas maravilhosamente
Hipócritas.

Mas o defeito dos hipócritas
É que nunca percebem quem lhes paga na mesma moeda,
Pois então enganei-vos bem
Agora que faço parte do vosso rebanho só quero morrer!

Os últimos resistentes


Não quero que o mundo me veja
Pois poderão não perceber.
Porque nada é eterno
E mesmo o último resistente
Deixará de o ser.

Tudo dura o que tem a durar,
O universo decide, Deus decide
O Homem decide, mas nada é eterno.
Alguns agradacem outros sofrem,
A própria vida poderá não ser eterna.

A última muralha será derrubada,
O maior ditador será deposto.
Os últimos guerreiros já aguentaram de mais
E serão derrubados.

Nada é eterno, nem a beleza nem a certeza,
Agradeço satisfeito um pouco de eterno
Momento que posso aproveitar,
Até se desvanecer no tempo é meu.

Não quero que o mundo me veja,
Só quero que saibam quem eu sou,
Não pelo meu rosto, nem pelo meu nome,
Que saibam apenas o que eu fiz.

Um dia tomamos por certo a eternidade
Mas é nesse momento que a eternidade
Nos mostra sarcasticamente
Que nada é eterno.

E mesmo o último resistente
Deixará de o ser.
Mais cedo ou mais tarde
Seremos alma do universo.
Será fim? Será outro inicio?

Toco piano em cima da lua
E toco a melhor música,
A música que nos une no eterno,
Porque a esperança é eterna
Apesar de nada ser eterno.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Pedaços teus

São pedaços teus que me
Prendem ao teu mundo,
Esse mundo estranhamente
Próximo de um paraíso tão longínquo.
Passeio no mundo e vejo-te,
Desvio os olhos e vejo-te.
Fecho os olhos e vejo-te.

Pedaços de ti afastam-se
De mim em tempos que
Padecem de fome.
Fome essa saciada
Do nada que invento.
Mas o tempo cura tudo
E os pedaços teus vão desaparencendo.

O meu inferno interior
Está em constante mudança.
Amo-te no sentido do sentimento
Mass esse mesmo amor
Tornarse-á veneno,
Esse mesmo amor dará
Lugar ao ódio,
Mas conseguirei eu
Deixar que me fujam os pedaços teus?

Sentença

Perdi a lógica do abstracto
Nesse limiar do momento:
O que é melhor o peso
Ou a leveza?

Nasci com o peso da sentença
Uma sentença tão leve:
Esforça-te e sê feliz.
Não estará este mundo trocado?
Vivo desenfredo, neste busca
Pelo impossivel.
Larguem-me, soltem-me
Porque me sufocam dessa maneira?

Agradeço o peso da roupa que me aquece
Desprezo a leveza que me leva para
O lado errado.
Respiro o sol através da pele,
Um dia de chuva é sempre pesado
Mas a chuva é sempre leve.

Num universo regido por leis
Contrárias sirvo-me das histórias
Diárias para escrever prosa
Em forma de verso.

Façam o que quiserem,
Mas jamais me encurralem
Nessa vossa realidade monótoma,
Jamais ousem dizer que sou aluno
Da rotina, não me salvem da loucura,
Não me ensinem inutilidades
Dessas que veneram todos os dias.

Ajoelho-me perante a irrealidade,
Venero a utopia,
Agradeço essa sentença
Que me lembra
Que devo tentar ser melhor.